16 C
Porto
19.2 C
Lisboa
22.9 C
Faro
Domingo, Julho 14, 2024

Jornais, revistas e “escândalo” comercial

As mais lidas

Onofre Varela
Onofre Varela
Jornalista/Cartunista

Fui leitor e comprador diário do jornal espanhol El País desde a década de 1980 até há três anos. Foram mais de 30 anos de fidelização que terminou no dia 16 de Fevereiro de 2021 porque o El País deixou de vender a edição em papel fora de Espanha.

Devo dizer que considero o El País o melhor jornal ibérico. Para além das suas excelentes secções de Cultura e de Ciência, mais o tratamento jornalístico da política mundial e a óptima qualidade dos seus artigos de Opinião, também trata assuntos de História, Arqueologia, Antropologia e Religião com seriedade, conhecimento e rigor. Puxando a brasa para a minha sardinha, também devo dizer que, diariamente, publica trabalhos de três ou quatro cartunistas.

Recordo que as notícias mais correctas e isentas que li sobre a invasão de Timor e a morte de Savimbi, foi o El País que as publicou. Os redactores espanhóis não estavam “cerebralmente” ligados a um dos lados como estavam os Portugueses por razões históricas difíceis de contornar. Daí (talvez) a isenção no tratamento noticioso de tais casos pelos camaradas jornalistas espanhóis. E depois, o El País tem mais esta virtude: dá menos espaço ao futebol do que os jornais portugueses… o que para mim é excelente por se tratar de matéria informativa que dispenso.

No jornal espanhol também senti haver respeito pelo leitor… o que me parece ser cada vez mais raro! Comprovei-o quando o El País deu notícia da mudança de hora que acontecia em toda a Europa “menos em Portugal”!… Juntei provas do erro cometido e escrevi à Redacção do jornal para que se elucidassem. Dias depois recebi telefonema de um secretário da Redacção que, falando Português, agradeceu o meu reparo e informou-me que iam publicar um desmentido… o que fizeram no dia seguinte na secção “Fé de errores”.

Quando o El País deixou de ser vendido em papel fora do território espanhol, com muita pena minha também deixei de ter acesso ao seu suplemento Cultural Babélia publicado aos Sábados… e passei a comprar o El Mundo que publica o suplemento La Lectura às Sextas-feiras… mas não é a mesma coisa (nem o suplemento, nem o jornal).

Agora… nem o El Mundo posso comprar… porque o “meu quiosque” deixou de vender imprensa! O senhor José do quiosque explicou-me as suas razões que, afinal, não são só suas… são de todos os quiosques do país. Há apenas uma empresa distribuidora de jornais e revistas: a VASP, que pertence ao grupo do jornal Expresso. Talvez porque não tem concorrência “faz o que quer e lhe dá na real gana“, segundo as suas palavras.

Quando surgiu a Covid e a quarentena dificultou a vida de todos nós, a empresa distribuidora começou a cobrar “uma taxa” pela entrega dos jornais. Os editores de jornais e revistas já pagam, obviamente, à distribuidora, pelo serviço prestado levando os periódicos aos quiosques distribuídos pelo país… pelo que “a taxa” que o distribuidor cobra aos quiosques, salvo melhor opinião, entra na figura de “duplo recebimento pelo mesmo serviço”!

O senhor José pagava uma taxa no valor de 1.84€/dia (1.50€ + IVA a 23%) e a venda de cada jornal dava-lhe o lucro de 0.20€. O que quer dizer que o apuro da venda dos primeiros nove jornais destinava-se ao pagamento da taxa… se não vendesse nove jornais estava a perder dinheiro!

A Associação Nacional de Vendedores de Imprensa (ANVI) interpôs uma providência cautelar no Tribunal de Sintra, em 9 de Julho de 2021. A VASP contestou-a… e quando se julgou o processo, o juiz deu razão à VASP, alegadamente por se tratar de “uma comparticipação nos custos de transporte”.

No país existem 6500 postos de venda de jornais; multiplicando por 1.50€, o apuro da “comparticipação” soma 9750€ por dia… nada mau!

Em resultado disto, houve quiosques que decidiram deixar a venda de jornais e revistas, dedicando-se aos artigos de turismo, bugigangas decorativas e tabaco. Na baixa do Porto foram muitos os quiosques que se reciclaram, abandonando a venda de imprensa.

Eu bem podia procurar outro quiosque que não aderisse ao boicote, para continuar a comprar imprensa Portuguesa, Espanhola e Francesa, como até aí fazia… mas por solidariedade com a luta dos quiosques, de cujo sentimento de escândalo também partilho… deixei de comprar imprensa e fiz uma assinatura digital de um diário nacional.

Tem sido cá uma poupança… nem vos digo nem vos conto!

- Publicidade -spot_img

Mais artigos

- Publicidade -spot_img

Artigos mais recentes

- Publicidade -spot_img