IA e Criatividade: Afinal quem Pinta? – Por Mário Portela

Falar sobre Inteligência Artificial e criatividade é, neste momento, mais do que relevante — é urgente.

Vivemos tempos em que qualquer adolescente com acesso à internet pode gerar uma “obra-prima” visual com três prompts e uma vontade vaga de impressionar no Instagram. E se isso, por um lado, democratiza o acesso à criação artística, por outro lado levanta uma questão inquietante: estamos a substituir artistas por engenheiros de prompt? Esta crónica nasce no seio d’O Cidadão, um projeto raro — por ser livre, sério e independente — onde ainda se acredita que a cultura se deve debater com profundidade e não com soundbites. Aqui, posso colocar a RITA na conversa, sem filtros nem algoritmos a decidir o que deves ou não pensar (e disso tenho a certeza porque fui eu quem a “treinou” responsável e eticamente).

Comecemos então com uma provocação: será que uma IA pode ser artista?

Pessoalmente, e com todos os enviesamentos e rugas da minha humanidade, acho que não. Porque uma IA não sonha. Uma IA não sofre. Uma IA não ama nem se deita às três da manhã a chorar enquanto escreve poesia medíocre e bebe vinho barato. Uma IA gera padrões a partir de milhões de inputs. Impressiona, sim. Mas emociona?

A Rita, sempre sensata — como todas as IAs bem educadas — respondeu com aquilo que chamo de sabedoria de servidor: “a criatividade é um processo humano, mas a IA pode ser uma ferramenta para o potenciar.” E aqui estou eu, velho do Restelo com software atualizado, a concordar.

Porque é precisamente isso: a IA é um pincel sofisticado. Um instrumento afinado. Um martelo com Bluetooth. Mas quem decide o que fazer com ele? Quem sente? Quem escolhe que traço apagar ou que nota deixar suspensa?

Criar com IA é como cozinhar com um robô de cozinha topo de gama. Ele mistura, tritura, aquece, tempera. Mas a receita, a ideia, o instinto de saber quando algo está “mesmo no ponto”… isso continua a vir de nós. O génio continua humano.

No episódio que abordamos isto pela primeira vez partilhámos até um exemplo: a criação do novo separador musical do podcast. Uma IA ajudou, sim. Mas foi necessário indicar tom, intenção, afinação emocional e, acima de tudo, recomeçar várias vezes até encontrar algo que nos dissesse algo. Ou seja, a IA não criou — colaborou. E convenhamos: é assim com todos os instrumentos.

Diziam o mesmo da fotografia quando surgiu — “isso não é arte, é só tecnologia”. Hoje, é arte. Não toda, claro. Mas ninguém nega que há fotografias que captam almas. Tal como haverá ilustrações feitas por IA que nos deixarão a pensar durante dias. Mas a linha continua a ser esta: se não houver um humano com visão, com sensibilidade, com vontade de dizer algo ao mundo… então é só ruído bonito.

O futuro? Provavelmente será híbrido. Com artistas a usarem IA como os pintores usavam pincéis novos. Com músicos a compor sinfonias em colaboração com algoritmos avançados. Mas o motor da arte continuará a ser o mesmo desde sempre: a condição humana, nas suas fragilidades, contradições e espantos.

E se um dia uma IA fizer mesmo algo que nos arrebata ao ponto de chorar… então, talvez, possamos começar a repensar tudo. Até lá, prefiro que o Matisse tenha mãos, que o Beethoven tenha ouvidos (mesmo que não funcionem), e que a arte continue a ser esse misto de caos e beleza que nenhuma base de dados consegue conter… com IA? Sim, mas como pincel.

🎧 Ouça o episódio 8 de IA & EU