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Domingo, Maio 19, 2024

História do Jazz 2ª Parte – Por António Ferro

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Depois da Guerra (II), veio a Be Bopnança
Quando comprei o “The Quintet / Jazz At Massey Hall”, estava longe de entender o que ouvia, um pouco por culpa da rapaziada – Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Bud Powell, Charles Mingus e Max Roach. Talvez agora entenda a reação do público, quando habituados que estavam ao Armstrong, ao Fats Waller, ao Cab Caloway e às centenas de orquestras que abrilhantavam os salões de baile e os teatros de há sessenta anos atrás, ficassem indignados perante a velocidade dos solos, a complexidade da harmonia, e a postura que estes músicos assumiam (muitas vezes de costas viradas para a assistência), nos clubes a altas horas da noite, como o “Minton’s Club”, onde paravam também Kennie Clarke e Thelonious Monk.

Esta postura também serviu para criar um certo afastamento e reacção à cultura branca. Sendo o primeiro disco de jazz gravado por brancos, os mesmos brancos que tinham outrora pintado a cara com rolha queimada para a imitação jocosa dos negros, roubando assim uma música que nasceu da escravatura para se servirem e apropriarem.

Charlie Parker
Charlie Parker

Como conseguiriam seguir as vertiginosas escalas arpejadas do Be Bop?Se por um lado Dizzy foi responsável por alguns cromatismos e algumas substituições de acordes, a intuição e a genialidade de Parker coloriram o fraseado com acentos, legatos e notas isoladas, algumas provenientes do guitarrista Charlie Christian, quando da sua passagem pelo Sexteto de Benny Goodman.

O acorde de 6ª, típico do Swing, foi rapidamente substituído pela 9ª, 11ª e 13º, criando esta extensão dos acordes, uma sonoridade nova nos arpejos e nas escalas tocadas. Pois é, e quem não possuir alguns conhecimentos de música, pode não entender o que acabei de escrever.Uma escala é um conjunto de notas tocadas sequencialmente, como os dias da semana (Dom, Seg, Ter, Qua, etc), enquanto um acorde são essas mesmas notas tocadas simultâneamente e com um intervalo de uma nota entre elas (Dom, Ter e Qui – Seg, Qua e Sex).

Max Roach
Max Roach

Se até à altura do Bop, falávamos numa semana, depois do Bop passamos a falar de duas semanas, ou seja, a segunda-feira da segunda semana, em relação ao domingo da primeira semana, é uma 9ª, passaram nove dias e não dois. Sinceramente, não sei se prestei um esclarecimento, ou se criei ainda mais confusão…Então e como se explica um mês em música? A intenção foi boa.

No ritmo a acentuação do 2º e 3º tempos, e uma antecipação tipo anacruse, do primeiro tempo do compasso, acrescentaram o sal ao amendoim. Esta antecipação do tempo, é como adiantarmos o relógio 15 minutos e chegarmos ao fim de semana mais cedo.

Hoje estou muito “calendarístico”, a palavra não existe e eu não vou adicioná-la ao dicionário.
Até Coleman Hawkins foi na corrente, não sendo ele um verdadeiro Bopper, acabou por gravar um dos primeiros discos deste estilo, com canções como, “Woody’n’You” e “Disorder at the Border”. Um ano mais tarde, vieram os temas: “Groovin’ High”, “Salt Peanuts”, “Hot House”, “Billie’s Bounce”, “Koko” e “Now’s the Time”.


Os cubanos, os europeus e o Cool Jazz

Enquanto a trompete torta de Gillespie (alguém se sentou em cima, e ele acabou por optar pela campânula a olhar os céus), com as congas de Chano Pozo, faziam uma viagem ao Afro-Cubanismo, a Europa com Stravinsky e Debussy, os oboés e as trompas, coloriam os imaginários de Stan Kenton, Woody Herman e Claude Thornhill, o Boyd Raeburn que me desculpe, mas eu nunca fui com a cara dele.

Foi da banda de Thornhill’s que vieram Gil Evans e Gerry Mulligan, de novo os brancos ao ataque. Nada de pressas, numa mais “Cool”... Lee Konitz, Lennie Tristano, Warne Marsh, Paul Desmond e, Chet Baker, tiveram Miles e Lewis pela frente. John Lewis, com o seu, “Modern jazz Quartet” e a revitalização do vibrafone pelas mãos de Milt Jackson, com as influências da música Barroca e Renascentista, um pouco o que faz nos nossos dias, o italiano Gianluigi Trovesi que actuou no BragaJazz deste ano, à frente do seu noneto.

O estilo “Cool Jazz”, deve-se muito aos músicos aqui apresentados, mais ficou a dever à trompete com surdina de Miles Davis. Quando ouvi “The Bird of the Cool” pela primeira vez, percebi que depois da tempestade (BeBop), naturalmente só podia vir a bonança deste estilo, criado na segunda metade dos anos 40 e marcante nos anos 50.


Antes do Heavy Metal o Hard Bop.

Uma corrente mais política e mais racial, na segunda metade dos anos 50, liderada por Art Blakey e Charles Mingus, voltaram-se para as raízes negras das Work Songs, dos Blues e dos Gospel. Os chamados mensageiros do jazz (Art Blakey and the Jazz Messengers), simplificaram algumas orquestrações, voltando aos uníssonos (tocar a mesma nota), com os solos entremeados entre alguns riffs (Pequenas trechos musicais repetidos).

John Coltrane 1966
John Coltrane

É uma música forte, negra 100 %, e que se torna manifestamente numa atitude política. Neste conceito do Hard Bop poderíamos figurar John Coltrane, se lhe acrescentásse-mos as influências modalistas orientais, embora no meu conceito, John Coltrane está para o jazz, como L.Van Beethoven está para a música erudita, ou seja, à parte dos estilos onde queiramos incluí-los. Uma janela do jazz será dedicada aos dois.
Este “post-bop”, criado entre os anos 50 e 60, nas áreas metropolitanas de Detroit (Elvin Jones, Tommy Flanagan, Paul Chambers, Thad Jones) e Philadelphia (Lee Morgan, McCoy Tyner, Philly Joe Jones, John Coltrane), deram registos importantes para a História do jazz.

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