História da Ciência em Portugal com Carlos Fiolhais Parte I – uma introdução ao legado científico nacional

Carlos Fiolhais. História da Ciência em Portugal. Sessão nº1. El Corte Inglés

O curso “História da Ciência em Portugal”, ministrado pelo professor Carlos Fiolhais no Âmbito Cultural do El Corte Inglés, teve como início uma introdução cativante e informativa realizada por Alberto Marques Pereira, responsável pela Comunicação e Relações Institucionais do El Corte Inglés. Em nome do Âmbito Cultural, destacou a importância do tema e deu o tom para a jornada enriquecedora pelo passado histórico e científico de Portugal, que se seguiria.

Esta foi a primeira sessão, realizada esta terça-feira, 14 de janeiro, onde o professor Carlos Fiolhais apresentou uma análise detalhada sobre os primórdios da ciência em solo português, explorando o contexto histórico das universidades medievais e o impacto dos Descobrimentos na produção de conhecimento. Segundo o professor, a evolução científica em Portugal sempre esteve intrinsecamente ligada ao panorama global, com destaques como as contribuições na navegação e na cartografia.

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Foto de FILIPE ARRAIS

Ao iniciar a sessão, Carlos Fiolhais destacou a fundação da Universidade de Coimbra, em 1290, como um marco para a institucionalização do saber no país. Explicou que, na Idade Média, as universidades funcionavam como os principais centros de conhecimento na Europa, sendo responsáveis pela conservação e transmissão de saberes clássicos. “A Universidade de Coimbra não foi apenas um lugar de ensino, foi também um elo entre Portugal e as grandes correntes intelectuais europeias”, afirmou. Apesar de enfrentarem limitações em termos de experimentação, essas instituições ajudaram a consolidar o conhecimento académico em disciplinas como teologia, filosofia e medicina.

Os Descobrimentos como impulsionadores do saber

Um dos pontos centrais abordados foi a relação entre os Descobrimentos e o desenvolvimento da ciência. Carlos Fiolhais enfatizou que, durante os século XV e XVI, a exploração marítima portuguesa não apenas ampliou os horizontes geográficos, mas também impulsionou a inovação em diversas áreas. “Os navegadores portugueses não  descobriram apenas novas terras, mas também registaram novas espécies, observaram fenómenos naturais e produziram mapas que revolucionaram o conhecimento cartográfico”, explicou o palestrante.

Mencionou que instrumentos fundamentais como o astrolábio e as tabelas astronómicas permitiram aos marinheiros determinarem a sua posição no mar com maior precisão. Essas ferramentas, muitas vezes baseadas em conhecimento árabe e greco-romano, foram adaptadas e aperfeiçoadas por cientistas portugueses. Um exemplo citado foi Pedro Nunes, matemático e cosmógrafo que introduziu conceitos como a linha de rumo, essencial para a navegação oceânica.

O Professor Universitário também discutiu como o contato com outras culturas contribuiu para o enriquecimento do conhecimento em Portugal. Realçou que, durante as viagens, os portugueses não traziam apenas riquezas materiais, mas também novos saberes, como práticas médicas e especiarias com propriedades medicinais. “A ciência portuguesa cresceu em diálogo com o mundo”, disse.

A influência das ordens religiosas

Outro tema explorado foi o papel das ordens religiosas na disseminação do saber científico. Carlos Fiolhais destacou os Jesuítas como protagonistas nesse processo. “A Companhia de Jesus criou uma rede de colégios em Portugal e em territórios coloniais, ensinando disciplinas que iam além da teologia, incluindo matemática, astronomia e filosofia. Esses colégios foram os primeiros a introduzir um ensino sistemático em ciências experimentais no país”, afirmou.

Entre os exemplos citados, está o Colégio das Artes de Coimbra, fundado em 1548, que foi um importante centro de formação intelectual e teve um papel crucial na disseminação das ideias da filosóficas e científicas. O catedrático mencionou ainda a presença de figuras internacionais nos colégios portugueses que contribuíram para a troca de ideias e renovação do pensamento científico.

A Reforma Pombalina e a modernização

Avançando um pouco mais além dos Descobrimentos e chegando  ao século XVIII, o ensaísta científico, dedicou parte da sessão a falar da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, realizada em 1772. “Sob a liderança do Marquês de Pombal, a Universidade passou por uma profunda transformação, com a criação de novos cursos e a introdução de laboratórios de ciência experimental. A reforma pombalina foi um divisor de águas para a ciência em Portugal, trazendo uma abordagem mais prática e experimental ao ensino”, disse.

Mencionou a criação do Laboratório Chimico, um dos primeiros do género na Europa, que serviu como modelo para instituições de outros países. Esse período também marcou a introdução da matemática aplicada e de disciplinas como física e química no currículo universitário.

A ciência na Primeira República e no Estado Novo

O douto professor fluiu ainda o seu raciocínio até ao século XX, para indicar que se tratou de uma época onde Portugal viveu momentos de avanços e retrocessos na ciência. “A Primeira República promoveu a expansão do ensino superior, com a criação de novas universidades, como as de Lisboa e Porto, em 1911, apesar disso, o Estado Novo trouxe desafios, como a censura e o controle estatal sobre a produção académica. A ciência foi prejudicada pela falta de liberdade académica e pela escassez de recursos”, observou o Lente. “Mesmo assim, algumas áreas conseguiram prosperar, como a medicina, que se destacou com a atuação de cientistas como Egas Moniz, laureado com o Prémio Nobel de Medicina em 1949 pela sua invenção da leucotomia pré-frontal“, rematou.

Ligações a grandes nomes da ciência

Carlos Fiolhais encerrou a sessão falando sobre a receção das ideias de grandes cientistas em Portugal, como Galileu, Newton e Darwin. Destacou que apesar de o país ter enfrentado barreiras para a disseminação dessas ideias, houve esforços significativos para incorporá-las no ensino e na investigação. “Portugal não foi um mero espectador da ciência europeia, participou ativamente na discussão e aplicação de novas teorias”, retorquiu.

A sessão terminou com uma discussão entre os participantes, que abordaram questões como o impacto da globalização no conhecimento científico e os desafios enfrentados pela ciência contemporânea em Portugal.

Carlos Fiolhais. História da Ciência em Portugal. LIVRO. El Corte Inglés
Livro de apoio ao curso. Direitos Reservados

Este encontro foi apenas o início de um curso que promete oferecer uma visão abrangente sobre o legado científico do país, a que se seguem mais quatro terças-feiras consecutivas, que aguardamos entusiasticamente.

OC/RPC

Nota de edição: Este artigo foi enriquecido, integrando algumas sugestões gentilmente cedidas pelo Professor Carlos Fiolhais.