Há vidas que ficam pelo caminho – Por Rosa Fonseca

Há vidas que ficam pelo caminho. Hoje trago-vos uma dessas vidas, ceifada quando ainda era seara verdejante.
Foi a droga que o levou”, dizia-se à boca pequena no café da terra.

Por dentro dos seus olhos cresce uma nuvem espessa, pronta a desabar a qualquer momento. Tem o peito dorido num corpo desalentado.
Viu o seu amigo tão novo, perder-se nas garras da droga. E nada pôde fazer.
Há muito que os seus passos desembocavam nas ruelas estreitas e frias da cidade. Mergulhava num lamaçal a céu aberto. Percorria, entorpecido, a calçada empedrada de vidas desassistidas. Lentamente, a heroína sonegava-o à vida.

Abraçou-o nas inglórias curas. Choraram nas recaídas. Amparou-o na amargura.
Afagou-lhe o corpo nas dores. Nas dores dilacerantes dos últimos dias numa cama de hospital.

Agora, ali, de ombros caídos lembra a aldeia esverdeada a espraiar-se na infância. As casas de beirais ladeados de avencas viçosas. A algazarra nos fins de tarde, em brincadeiras coletivas, no Largo da Fonte. Todas as memórias lhe berram sem piedade. Atordoa-o, talvez a culpa de algumas vezes não ter percebido nas entrelinhas o desassossego que minava o amigo. Inunda-o uma mistura de tristeza e solidão. Também ele, em abandono.
Tinham deixado as terras altas e descido à cidade. O destino era enfrentar todos os desafios e sonhos.
A universidade, durante os primeiros anos, foi o local que os acolheu e onde passaram grande parte do tempo. Juntos – juntos nos sonhos, nos medos, na perseverança – como no tempo em que trilhavam os caminhos íngremes da meninice. Onde se perderam?
Porventura, na brutalidade dos dias que subterraram a paisagem da sua aldeia…

Percorre-o um vento frio, inusitado em pleno verão, numa aldeia do interior onde as montanhas ecoam o desespero desse dia.
O seu amigo de tantos caminhos… de pião e arco no largo da fonte…
Onde se perdeu o menino que queria voar e conhecer mundo…onde sucumbiram os seus sonhos?

Que encruzilhadas o engoliram e o fizeram mergulhar em águas escuras sem retorno?!…
E hoje estou de volta ao lugar onde te deixei há dois anos. Trago-te o alecrim com que atapetávamos a entrada das nossas portas em tempos de Páscoa… A água da fonte não jorra como outrora, mas o Largo da Fonte ainda é aquele lugar de reencontros e abraços. O lugar dos que voltam à terra natal em dias de festa. Talvez em busca dos aromas adocicados da erva doce e do alecrim, das folhas de laranjeira sobre os muros… É dia de Páscoa e vejo-te a beijar os pés de Cristo…”

Direitos Reservados

Todos conhecemos alguém que está a passar ou passou, por um problema de adição. Precisamos, enquanto sociedade, ter um olhar incisivo sobre este fenómeno que afeta o indivíduo.

O consumo de drogas continua a ser um flagelo a céu aberto que envolve aspetos sociais, económicos, psicológicos e de saúde.
São urgentes medidas mais musculadas e transparentes que devem começar pela prevenção- na família, coletividades e escola; consciencializar os mais jovens do uso problemático de drogas e, não menos importante, criar atividades que promovem a autoestima, o lazer e o conhecimento de si próprio numa abordagem mais holística.
Mas acima de tudo, identificar precocemente as motivações que levam ao consumo inicial de drogas pelos adolescentes e jovens para se intervir cabalmente.