18. Há semanas que parecem emprestadas à normalidade

Na anterior, publiquei um texto e sentia-me inteiro. A casa respirava calma, o corpo acompanhava e, por momentos, era fácil esquecer que existia um calendário de tratamentos à minha espera. Havia espaço para conversas demoradas, para rir sem pensar duas vezes, para habitar o dia como quem acredita que ele é garantido.
Depois veio a outra semana.
A quimioterapia regressou e, com ela, a casa voltou a encher-se de silêncios e pequenas batalhas invisíveis. A boca ferida, o cansaço colado aos gestos mais simples. O corpo, que antes parecia leve, passou a exigir negociações para cada movimento. O contraste é brusco, quase injusto entre aquilo que somos quando estamos bem e aquilo que resistimos a ser quando adoecemos.
É nesse intervalo que aprendo a medir o tempo.
A semana boa não é apenas um alívio: é um convite. Um lembrete de que os dias em que o corpo consente devem ser vividos sem adiamentos. E as semanas difíceis, apesar de tudo, não são um vazio. Mesmo doente, continuo a encontrar maneiras de estar presente em gestos pequenos, em palavras trocadas, em instantes que não deixam de ter valor só porque custam mais.
Entre uma semana e a outra existe um fio contínuo: a vida não suspende. Muda de ritmo, muda de forma, mas continua a pedir que a habitemos, inteira, sempre que podemos, e como podemos.