Há fenómenos políticos que não podem ser explicados apenas com as estatísticas nem com as análises de muitos comentadores. Há fenómenos que exigem um olhar mais íntimo, quase introspectivo. Um desses é este: a vitória de um partido ou de um líder populista no círculo da emigração. Uma vitória celebrada por quem, ironicamente, vive daquilo que esse mesmo discurso condena — a circulação, a fronteira aberta, a fuga possível, o direito de partir.
E eu, social democrata, criado na ideia de que se constrói comunidade, contracto social e o progresso colectivo, olho para isto e não consigo digerir. Não por arrogância moral, mas porque algo passou ao lado. Algo que não foi visto. Algo que ainda não estão a ver.
Como é possível que emigrantes votem com entusiasmo em quem diz que não nos quer? Ou, pelo menos, não nos quer noutros sítios? Como é possível aplaudir a defesa de muros enquanto se vive graças à existência de portas abertas? Portugal é — historicamente — um país que sobrevive porque pôde emigrar. Porque um dia alguém teve de largar tudo e partir para ganhar o pão, para fugir à miséria, para escapar a um destino estreito ou simplesmente para procurar o tal “melhor”. Somos um país da diáspora antes mesmo de sermos um país de democracia.
E, no entanto, o voto não respeita biografias nem coerências. O voto respeita ressentimentos, identidades feridas, promessas simples e soluções mágicas. Respeita o cansaço, a frustração, o sentimento de abandono e a narrativa que se cola melhor ao medo. O populismo entende isto com uma precisão cirúrgica. Enquanto isso, nós — que acreditamos nas instituições, nos equilíbrios, e no gradualismo — demoramos demasiado a compreender que um eleitor não escolhe apenas com a cabeça: escolhe com o estômago, com a raiva, com a memória( se for detentor dela),e com a mágoa.
Talvez os emigrantes votem assim porque se sentem esquecidos pelo país de onde vieram e pouco reconhecidos no país onde vivem. Talvez não se identifiquem com a esquerda porque a esquerda falhou em lhes falar. Talvez não se identifiquem com a social-democracia porque esta social-democracia deixou de ter narrativa — passou a ter apenas gestão. E quem está frustrado não quer gestão: quer causa, quer pertença, quer bandeira.
E então o populista chega, olha nos olhos, diz “eu vejo-vos”, culpa alguém e oferece um culpado para o sofrimento e sacrifício. A fórmula, essa não é nova — o que é novo( talvez até espectável) é a nossa incapacidade de a antecipar. A vitória nesses círculos não acontece apesar de serem emigrantes — acontece precisamente porque o são. Porque vivem na fronteira física e simbólica entre dois mundos. E quando se vive na fronteira, a política identitária tem um terreno fértil.
E eu pergunto: onde errámos? E, mais difícil ainda: onde continuamos a errar para não ver o erro?
Eu não consigo aceitar isto como normal, porque não é normal um país de emigrantes votar alegremente contra a ideia de emigrar — tal como não é normal o doente aplaudir o corte do orçamento da saude, ou o faminto aplaudir o cancelamento das ajudas e do apoio social. Há aqui uma dissonância moral profunda. E quando as dissonâncias se normalizam, a democracia fica vulnerável , deixando de ser pilar para ser alvo.
Algo está completamente errado. Não sei ainda se o erro está no discurso político, na incapacidade de comunicar, na deserção cultural, ou simplesmente na nossa presunção de que tínhamos o eleitor “conquistado para sempre”.
Mas o que sei é isto: se não percebermos o que falhou, o populismo não será apenas um episódio — será um novo normal. E, nesse normal, nós seremos estrangeiros na nossa própria casa política. Tal como os emigrantes são estrangeiros duas vezes: no país onde vivem e no país onde votam.
A minha perplexidade não me consola. Obriga-me a pensar. Obriga-me a aceitar que não chega estar certo — é preciso ser ouvido. E não basta oferecer políticas — é preciso oferecer sentido.
E talvez seja precisamente isso que está a faltar. E que ainda não estamos a ver.
No fim, ainda acredito que o antídoto para a mediocridade política não é o insulto, nem a desistência, nem o cinismo resignado — é a inteligência cívica. É o discernimento que observa, compara, questiona e escolhe com tempo e com memória. É a exigência dos cidadãos que recusam o espetáculo e pedem substância. É a coragem de não confundir barulho com a verdade, nem a raiva com programa, nem a promessa fácil com a governação possível.
Se houver de morrer alguma coisa, que seja essa mediocridade ruidosa que tem corroído a política por dentro e reduzido a democracia a um mercado de emoções baratas. Que prevaleçam a lucidez, a decência e a ambição de país — porque é delas que nasce o futuro, e não da espuma das horas.
Engenheiro/Colaborador














