Há 30 anos também era verão em Sbreniza – Por Nuno Moura Brás

Era Verão – depois de mais um Inverno gelado, mas muito mais duro e desconfortável do que em anos anteriores: pejado de sombras, combates e cadáveres – o sol brilhava, atirando as temperaturas para um calor seco e insuportável.
 
Para quem vive onde os invernos atiram as temperaturas para abaixo de zero, o verão deveria ser, como era sempre até então, tempo de manga curta, passeios nos parques, crianças a rir e gente a namorar pelas ruas e por entre as arvores da magnífica floresta que povoa as encostas.
 
Era Verão em Sbreniza, em 1995.
E nesses tempos, na Bósnia, já nada era como fora até 1992.
Com a dissolução da Jugoslávia, os independentismos assomaram – cruéis, violentos.
A guerra assentou arraiais entre (ex) compatriotas, amigos, vizinhos.
Onde havia vida, a morte tornou-se para uns fatal, para os restantes, iminente.
 
Dia a dia. a guerra era feita nas cidades, nas ruas. Pior:  patamar a patamar. Onde havia vizinhos havia agora inimigos armados. Matar ou morrer, bastava as etnias, as religiões inscritas no BI  não coincidirem.
Os sinais, tal como a metralha . os bombardeamentos, os mortos, estavam dados: famílias começaram a ser designadas por mistas, caso houvesse uma mistura entre sérvios, croatas, bosnios. entre ortodoxos, católicos , muçulmanos.
Morte e sobrevivência, santo e senha na Bósnia desses dias.
 
As Nações Unidas já estavam no terreno, com forças armadas no terreno
A ONU tinhas declarado, assegurado, que Sbreniza era um zona de segurança, uma zona segura, assegurada por garbosos militares holandeses, arvorados em capacetes azuis.
era verao em sbreniza, quando forças sérvias, militares e paramilitares, comandadas pelo General Mladic, entraram de armas aperradas, decididos a  tomarem a cidade.
 
Nesse verão, em sbreniza, o tempo já não era de sorriso, de brincadeiras inocentes, de namoros felizes.
Debaixo de um ceu limpo, de um sol quente e lindo, milhares de pessoas, a população inteira, invadiu, aterrada, as instalações das forças militares da ONU, procurando refúgio junto dos garbosos capacetes azuis.
O cerco era completo e os militares holandeses, impecavelmente fardados, depois de breves conversas com os sitiantes.
Horas depois, os refugiados eram expulsos e entregues.
 
Mladic fez o que queria: separou homens de mulheres.
Crianças, jovens adultos e velhos enfileirados para a morte, frente à imensa cova – chamam lhes valas comuns – que lhe serviria de última morada:
mais de 8 mil pessoas do sexo masculino foram metodicamente abatidos, tombando no buraco aberto – que nao havia nem tempo a perder.
as mulheres, também elas de todas as idades foram violadas, humilhadas – as poucas que disseram não foram abatidas – antes de serem recolocadas.
era verão em sbreniza quando o maior acto de genocídio desde a II guerra mundial aconteceu, (ONU dixit).
parece que foi ontem, na verdade, não. foi há mais tempo. 
Foto de ONU. Direitos Reservados
Perante o estado do mundo, não custa crer que os genocídios, as limpezas étnicas voltem para ficar.
1992 – era verão em Sbreniza. em Portugal também.
 
Uns alegaram que apenas cumpriam ordens, como sempre, confirmando a banalidade do mal, como escreveu Hanna Arendt.
Outros agonizam, ainda hoje com o pesadelo eterno.
 
A maioria de nós diverte-se, viaja. por vezes espanta-se com a beleza: das coisas, dos ambientes. Pasma-se com o belo e o bem estar até à agonia; o chamado mal de Stendhal.
Perante tamanho mal, antes o de Stendhal.
 
Teimosa e consecutivamente, o calor assoma e as flores silvestres reaparecem. talvez seja um sinal. Não estou certo do quê…
É verão em Portugal. Em Sbreniza também.
 
 

NR: O jornalista Nuno Moura Brás esteve na Bósnia, durante dois anos, de onde reportou os acontecimentos bélicos dos balcãs para a Antena 1.