Gavião| “Do Romantismo ao Âmago da Modernidade” num percurso de meio século pela musica europeia

Atividade dedicada ao património na tarde de sábado (15h00), 27 de junho, sob o título «Um Ponto-Chave na Linha Estratégica do Tejo: O Castelo de Belver», propõe a compreensão de como a geografia condicionou as estratégias de poder.

 Manhã de domingo, 28 de junho (9h30), propõe a atividade de salvaguarda da biodiversidade «Matas e Povoamentos Florestais: Repensar o Futuro Silvícola de Gavião». Momento para refletir de que forma poderão as gerações futuras continuar a viver, produzir e preservar uma paisagem em permanente mudança.

Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.

Permanência e renovação

A história da criação artística europeia não se escreve apenas pela invenção. Cada época transforma o passado, encontrando novos significados nas obras que a precederam – revisitando-as, metamorfoseando-as, imprimindo-lhe outros sentidos. Beethoven regressou ao universo de Mozart; Schumann transformou a inspiração popular em matéria poética; Stravinsky reencontrou a tradição italiana à luz da modernidade. Este diálogo entre permanência e renovação firma-se no programa do Festival Terras sem Sombra (TSS) em Gavião, nos dias 27 e 28 de junho. No concelho do Alto Alentejo, a música, o património e a salvaguarda da biodiversidade têm encontro marcado num fim-de-semana que conduz o público das memórias medievais à beira-Tejo até às questões contemporâneas da gestão florestal, também com um concerto de violoncelo e piano que percorre alguns dos momentos mais marcantes da história da criação musical europeia.

Do madrigal ao modernismo: um século e meio de criação europeia

«Do Romantismo ao Âmago da Modernidade: Essências e Rupturas» é o título do concerto da noite de sábado, 27 de junho (21h30), na igreja matriz de Belver, monumento que se destaca pela nave coberta por abóbada de nervuras e pelo retábulo-mor barroco, além das qualidades acústicas. Em palco, o italiano Duo Baldo-Consonni, formado pela violoncelista Lorenza Baldo e a pianista Martina Consonni.

Duo Baldo-Consonni. Direitos Reservados

O programa percorre mais de século e meio de criação musical europeia: Beethoven parte de Mozart para construir um refinado exercício de invenção; Schumann convoca o universo popular com a sensibilidade poética do romantismo alemão; Stravinsky revisita a tradição italiana do século XVIII com a liberdade e a ousadia da modernidade; e Castelnuovo-Tedesco recupera a figura de Fígaro e a vitalidade teatral de Rossini numa obra de grande brilho instrumental. Exercício de visitação à memória e à reinvenção, à tradição e à transformação, o concerto propõe uma escuta atenta ao modo como a música perpassa os séculos renovando continuamente os seus próprios horizontes.

Fundado em 2019 no âmbito da Academia Pianística Internacional Incontri col Maestro, de Imola, o Duo Baldo-Consonni tem percorrido salas de referência na Europa, na Ásia e na Oceânia, construindo uma obra camerística que dialoga com a tradição sem se deixar aprisionar por ela. Martina Consonni, considerada uma das pianistas italianas mais promissoras da sua geração, já se apresentou na Philharmonie de Berlim, na Wigmore Hall de Londres e no Teatro alla Scala de Milão. A violoncelista Lorenza Baldo distingue-se pela consistência do trabalho de câmara e pela colaboração com músicos de referência europeus.

O Castelo de Belver: onde a geografia se fez estratégia e poder

Castelo de Belver. Direitos Reservados

A tarde de sábado, dia 27 (15h00), propõe a visita guiada «Um Ponto-Chave na Linha Estratégica do Tejo: O Castelo de Belver», com ponto de encontro no próprio castelo e orientação de Isabel Cristina Ferreira Fernandes, arqueóloga, diretora do Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago e investigadora do Instituto de História Medieval da Universidade Nova de Lisboa.

A visita ao Castelo de Belver convida a percorrer um dos mais relevantes conjuntos da arquitetura militar medieval portuguesa e a compreender a importância estratégica que o vale do Tejo assumiu na consolidação do reino. Fundada no final do século XII pela Ordem de São João do Hospital – a atual Ordem de Malta –, após a doação destas terras por D. Sancho I, a fortaleza integrou a linha defensiva que protegia uma das principais fronteiras da Reconquista. 

Na paisagem de Gavião: entre o recurso económico e o património coletivo

Na manhã de domingo, 28 de junho (09h30), a atividade «Matas e Povoamentos Florestais: Repensar o Futuro Silvícola de Gavião» parte da Alameda 25 de Abril, sob a orientação de Júlio Catarino, engenheiro florestal e vice-presidente da Câmara Municipal de Gavião, e de Artur Almada e Melo, engenheiro florestal.

O percurso atravessa montados de sobro e azinho, pinhais e outras formações arbóreas que moldam a identidade do concelho, propondo uma leitura do território através das suas matas, da sua evolução ao longo do tempo e dos desafios que hoje enfrentam. A floresta constitui um sistema complexo onde se cruzam valores ecológicos, económicos, culturais e sociais. Ao longo do caminho, serão abordados os efeitos das alterações climáticas, a crescente pressão dos incêndios florestais, as transformações do mundo rural nas últimas décadas e as estratégias adotadas para uma gestão mais resiliente e sustentável.
Num território onde a floresta representa simultaneamente um recurso económico e um património coletivo, a atividade coloca uma questão que ultrapassa o perímetro local: de que forma poderão as gerações futuras continuar a viver, produzir e preservar uma paisagem em permanente mudança?

Na sua presença em Gavião, o TSS conta com a parceria do Município local e do Instituto Italiano de Cultura de Lisboa. Sublinhe-se também o apoio sustentado da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «La Caixa» e da CCDR-Alentejo