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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Fumar Música, Tocar Substâncias – as substâncias psicoativas no mundo musical

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Catarina Gomes
Catarina Gomes
Psicóloga/ Mestre em Psicologia da Justiça e da Desviância

Enquanto instrumento nos mundos musicaisParte 1

                                        PRIMEIRA PARTE    A presença significativa da droga no meio musical é, cada vez mais, reconhecida e discutida socialmente. Efetivamente, a antropologia cultural e etnologia evidenciam a utilização de substâncias indutoras de estados alternativos de consciência em numerosas culturas e épocas históricas.

Começando pelo início da integração das drogas na música: Barreto refere o psicadelismo, isto é, a experiência alucinogénia induzida por substâncias psicadélicas, enquanto ato deliberado de extensão da perceção e estabelece uma associação com a música.

Caracteriza estas experiências nas sociedades tribais como uma “euforia dos sentidos em reunião grupal”, atribuindo-lhe um carácter funcional e integrador dos padrões culturais. Por sua vez, o uso de substâncias psicoativas adquire uma função na dimensão estética da arte a partir do século XVIII. A perceção social do uso comum de substâncias por músicos de rock, músicos alternativos/R&B e músicos de jazz e blues, é reforçada pela difusão de cannabis e heroína, aquando do surgimento do jazz, e evolução da tendência de outras drogas ilícitas nos EUA e Inglaterra ao longo do século XX.

No início deste século, marijuana, heroína, morfina e anfetaminas estavam presentes e disponíveis ao público nos clubes e bares noturnos de jazz nos Estados Unidos, sendo o estimulante mais usado por músicos de jazz em Nova Orleães o álcool, substância aceite socialmente. Entre 1920 e 1930, era do Swing no género musical Jazz, a aceitação social e cultural do jazz diminuiu, provocando um autoconceito alienado de muitos músicos. Por outro lado, começam a surgir referências às substâncias psicoativas em títulos e letras de peças e composições, algo que se manteve ao longo da história até à atualidade. O aumento do consumo tornou-se mais evidente no pós II Guerra Mundial, quando surgiu o “bop” no jazz, uma música que estimulava o convívio.

O elevado consumo de substâncias, pela banalização do uso de drogas como o haxixe e a marijuana, e pela maior experimentação de drogas como a cocaína, a heroína e substâncias sintéticas, assumem um significado ideológico e cultural nos meios juvenis dos anos 60. Assim, a palavra psicadélico torna-se recorrente na música, referindo-se a música sobre consumo de drogas, música destinada a aumentar o consumo ou música como substituta do consumo. O rock progressivo surge do jazz-rock e foi, para uma grande parte da juventude deste período, a expressão que se associou às suas primeiras experiências psicotrópicas.

Taki estuda a indústria do rock n´roll, em 1969, compreendendo um número significativo de produções com foco no uso de drogas ilícitas, muitas vezes aprovando-o como forma de recreação e relaxamento. Este género apelava ao experimentalismo, com um tempo acelerado e vivência intensa e rápida. Artistas como Bob Dylan, The Rooftop Singers e os Beatles refletiram os seus sentimentos e atitudes favoráveis à experiência do consumo de substâncias nas letras das suas músicas, demonstrando ter uma influência sobre jovens que as ouviam.

Enquanto figuras influentes da música popular, conjuntamente com os media, estes músicos promoveram o consumo, criando uma tendência musical, onde dezenas de artistas faziam referências ao uso de drogas em letras de músicas de rock and roll. Compositores escreviam sobre o uso de substâncias, mesmo que não consumissem, e alguns faziam-no para lucrarem com a tendência vigente.

Em 1972, o primeiro festival de música em Portugal, em Vilar de Mouros, é a primeira demonstração de consumo coletivo de liamba e de LSD.

Ao longo dos anos 80, as substâncias psicoativas são o elemento caracterizador das camadas juvenis que usufruem de música moderna, bem como dos seus ídolos, do tempo noite e do espaço discoteca, bar, festival. Aparece, deste modo, nos anos 90o straight edge, uma corrente social que procura a libertação pessoal dos abusos a nível de álcool, drogas e sexo.

Atualmente, a substância psicoativa integra o universo artístico, cultural e comportamental da música pop, punk, rock e eletrónica. Alguns exemplos de músicos ou bandas célebres associados ao consumo de substâncias são Janis Joplin, Charlie Parker, Elton John, Travis Scott, Kurt Cobain, Louis Armstrong, Jim Morrison, Amy Winehouse, Bob Marley, The Who, Aerosmith, The Beatles, The Rolling Stones, Led Zeppelin, entre outros tantos. Literatura recente sugere que o abuso de substâncias é significativo na indústria musical, sendo, também, amplamente mediatizado. Perante o supracitado, a sociedade atribui um rótulo de desviante à vida de um músico.

Percebemos, assim, que as drogas têm uma ligação com a música desde as sociedades mais antigas. Mas porque é que haverá esta relação? Quais são os fatores motivadores para o consumo por parte de artistas musicais?

                                                         Fim da parte 1



Enquanto instrumento nos mundos musicaisParte 2


Parte doisConceções socioculturais assumem que os músicos consomem drogas para fins recreativos, para aumentar a criatividade e/ou face ao seu estilo de vida artístico. A investigação científica concluí que a instrumentalidade das substâncias psicoativas nos mundos musicais é muito mais ampla.

O uso de substâncias psicoativas por músicos surge, em primeiro lugar, pela perceção dos músicos do uso de drogas potenciar estados e sensações favoráveis ao processo de criação e de desempenho/performance musical, como, por exemplo, maior criatividade, estados de desinibição, maior autoconfiança, resistência à frustração, menor receio do julgamento do público, redução da ansiedade de performance, alterações de certas funções cerebrais, como a perceção do tempo, a referência métrica e a sensação musical, entre outros. A título exemplificativo, participantes num estudo de Winick evidenciaram que, ao expandir a conceção de espaço e tempo do músico, o consumo de cannabis podia ser usada de forma criativa para a improvisação, uma vez que a interpretação e interação com os elementos musicais se modifica: o músico pode perceber mais informações musicais e ter uma maior capacidade de processamento e resposta dentro desse período.

Outro fator motivador do consumo é a presença social da droga em ambientes de convívio e festivos musicais. Entre a natureza social da performance musical, o consumo conjunto de substâncias por membros de bandas em ensaios e antes de concertos e a família e grupo de pares consumirem, proporciona-se um meio social favorável ao consumo por parte dos artistas.

Importante, ainda, considerar a presença simbólica da substância psicoativas nos mundos musicais, inseridas numa estrutura económica e cultural favoráveis ao seu uso. Na verdade, o contexto das subculturas musicais, com estilos de vida, padrões e preferências de uso de drogas pelos artistas, a criação de uma linguagem propícia a um ambiente e comportamento de consumo e a forte presença de algumas substâncias em contextos festivos musicais são elementos que favorecem o uso de drogas.

O consumo por parte de músicos de renome e símbolos das grandes massas, surgindo em composições e sendo amplamente mediatizado, potencia, ainda, a conceção social de sucesso profissional musical relacionado com o uso de drogas. Alguns músicos, inclusive, associam os efeitos de determinadas drogas ao seu habitus para produzir música com estilos diferenciados, relacionando o estado emocional/psicológico durante a criação musical com a complexidade do eu interior do músico.

O consumo de substâncias psicoativas em contextos musicais ocorre, pelos mesmos motivos, por parte da audiência. Evidencia-se que o consumo é facilitador de um estado contemplativo e de uma “postura cool”, levando a um estado de consciência alternativo. De facto, a extensão subjetiva do tempo provocada pelas drogas relaciona-se com a hipersensibilidade a sons (“flashes acústico/visuais”), com sinestesias, que influenciam a audição e vivência musical de um indivíduo.

Por fim, fatores relativos à profissão de músico, como horários de trabalho irregulares, condições de empregabilidade, exigência física e emocional, isolamento social, expectativas do público e ansiedade de performance, demonstram também ter uma influência neste consumo.

Compreende-se que o consumo de substâncias psicoativas nesta subcultura está intimamente ligado ao imaginário e universo simbólico que a caracteriza, mas prende-se, também, com o hedonismo na sociabilidade grupal e pertença e afirmação no seio do grupo. Na análise do tema central deste estudo, revela-se importante uma reflexão abrangente sobre a estrutura cultural, económica e macrossocial da sociedade na qual, hoje em dia, os mundos musicais se inserem, para uma identificação não redutora dos fatores motivadores do consumo de substâncias psicoativas por parte dos músicos.

A falta de informação, o preconceito social e a toxicodependência são as maiores preocupações evidenciadas pelos músicos. Revela-se essencial, assim, desconstruir falsas crenças e desestigmatizar a presença das drogas nos mundos musicais e potenciar uma análise e olhar mais científico, compreensivo e humanizante, a fim de se implementar apoios especializados, intervindo conforme as necessidades específicas da população dos músicos no uso das substâncias psicoativas.

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