Filme “O Pátio da Saudade” bate recordes de bilheteira

Nos últimos anos, houve uma transfiguração e mutação, no paradigma do cinema português. O cinema deixou de ser hipérbólico e desmedido ao nível intelectual, onde o “acúmulo” é a “Branca de Neve” de João de César Monteiro.
Na altura exercia o cargo de diretor artístico do Coliseu do Porto e pedia ao Celestino (bilheteiro), para me informar dos términos das sessões no Passos Manuel, pois queria visionar quem tinham sido os heróis que conseguiram ficar até ao final do filme. E por outro lado, tentar ouvir os comentários hilariantes que eram proferidos…
Faz-me um pouco lembrar o que sucedeu com as programações culturais dos cine-teatros em Portugal…Com a estúpida mania, de apresentarem uma programação lapidar, aprimorada e introspectiva, muito pouco acessível ao grande público, afastaram o público das salas de espetáculos…
Concordo terminantemente e irrestritamente com o Lá Féria, quando se refere às bilheteiras! A dependência do “subsídio” no teatro, retirou completamente a preocupação com o resultado da bilheteira…Se já temos o “nosso” garantido, tanto nos dá que esteja a sala cheia, como com meia dúzia de “intelectivos” em que a sua ida às salas de espetáculo, tem como único intento e escopo, o serem visionados!
No tempo em que o Fernando Gomes, assumiu a presidência da câmara do Porto, ligava-me sempre que havia ópera no Coliseu do Porto. Ele não era apreciador de ópera e assim com a minha informação, entrava no coliseu dez a quinze minutos antes da récita terminar e depois com o seu ar ufano e esnobe, descia as escadas, abjugando opiniões de algo que na verdade, não tinha augurado nem visionado…
Bem voltemos ao Pátio da Saudade…
Vanessa (Sara Matos) recebe a notícia da morte de uma tia afastada, que lhe deixou em testamento um velho teatro dos tempos de glória da Revista à Portuguesa. Tozé
Leal (José Pedro Vasconcelos), o seu agente, tenta por todos os meios, convencê-la a vender o edifício em ruínas, mas Vanessa sente o apelo dos tempos áureos do velho teatro e convence os seus amigos, Joana (Ana Guiomar) e Ribeiro (Manuel Marques), a montarem um espetáculo para recuperar a antiga glória do teatro.
E o devaneio e a quimera, não serão fáceis de concretizar: Armando (José Raposo), proprietário de um teatro vizinho, faz tudo para impedir Vanessa. Um pouco exaurida e extenuada da rotina televisiva, fica cativada e aprazerada, com a recuperação do antigo teatro.
O realizador Leonel Vieira, autor dos remakes dos filmes “O Pátio das Cantigas” e do “Leão da Estrela”, já anteriormente mencionados, juntou-se a Aldo Lima, Alexandre Rodrigues e Manuel Prates, para escreverem em conjunto o argumento.
O elenco de O Pátio da Saudade conta com nomes como; Ana Guiomar, Manuel Marques, José Pedro Vasconcelos, José Raposo, Gilmário Vemba, José Martins, Alexandra Lencastre, José Pedro Gomes, Aldo Lima e Carlos Cunha. Do Porto, vieram os “senhores do dinheiro”, empresários de nomeada, aqui representados por Óscar Branco e Fernando Rocha (talvez a primeira vez que da sua boca não são proferidos palavrões…).
O Pátio da Saudade, de Leonel Vieira, registou 15 mil espetadores em quatro dias de exibição, o que o tornou no filme português mais visto do ano até agora!
“Depois de O Pátio das Cantigas’— o filme português mais visto de sempre nos cinemas —, Leonel Vieira regressa ao grande ecrã com uma nova comédia que celebra a tradição e a identidade nacional”.
Este filme, no meu entender, tem por principal foco, mostrar uma certa e necessária revitalização do teatro de revista (musiquei a revista “O Estádio da Nação” de Óscar Branco, José Raposo e Maria João Abreu), da necessidade de chamar o público ao teatro, num mundo onde a oferta cultural é descomedida e superabundante. Quando vivi em Berlim e olhava para a oferta cultural diária, teria que viver várias vidas para poder estar presente em pelo menos, metade delas…
Segundo palavras de José Raposo, “Um filme do Leonel Vieira em que gostei mesmo de participar! O riso e a revista à portuguesa são aqui tratados e elevados sem vergonhas nem preconceitos “à portuguesa”! Sabem, há muito que estou doido para voltar a fazer revista, apesar de no meu meio acharem que isso é de um tipo que é “menor” como artista! Quero lá saber do que dizem, aliás perdoo-lhes porque não sabem o que dizem…”