Eutanásia cumprida em Espanha

A notícia é do dia 27 de Março último. Publicou-a o jornal espanhol El País.
Noelia Castillo, uma jovem da Catalunha, com 25 anos de idade, conseguiu cumprir a sua vontade de morrer por eutanásia, depois de esperar 601 dias pela decisão dos tribunais.
A associação ultra-religiosa “Advogados Cristãos”, a pedido do seu pai (que mantinha uma relação nada pacífica com a filha e rejeitou a vontade dela em querer sair da vida com dignidade) tentou impedir até ao último momento o cumprimento da vontade de Noelia, e um deputado do partido de extrema-direita Vox, apoiante da vontade do pai, apelidou o acto médico de “execução”.
A jovem padecia de dores físicas constantes, agravadas por um sofrimento psíquico intenso. Sofrimento que era ampliado pelo seu próprio pai que, ajudado pelo grupo de ultra-religiosos, tentou parar a lei, alargando no tempo o compasso de espera que se traduziu em mais sofrimento para Noelia Castillo.
Foram em número de cinco as instâncias judiciais que tentaram travar a vontade da jovem catalã obrigando-a a viver em sofrimento, dia-a-dia, contrariando a vontade da única pessoa com direito a escolher o que sentia ser melhor para si; ela própria… como única proprietária do corpo que era unicamente seu.
Finalmente, depois de quase dois anos de luta travada perante a lei e com ajuda dos seus médicos que bem conheciam o caso e sabiam não haver outra saída para o seu sofrimento, foi autorizada a sair da vida. A alternativa era esperar pela morte que viria inexorável e sofridamente. Entre morrer agora, ou tomar fármacos redutores da dor e vegetar até ao fim da vida, Noelia escolheu a eutanásia: Morrer conscientemente e com dignidade.
“Morrerei bonita. Vestirei o mais lindo vestido que tenho e maquilhar-me-ei como gosto de me ver e de ser vista”, disse Noelia. Convidou elementos da família para se despedirem de si, mas recomendou não querer que a vissem fechar os olhos. Não quis ninguém a seu lado “no momento de lhe darem a injecção que lhe punha fim ao sofrimento”. Nesse momento estaria só, apenas na presença dos técnicos de saúde necessários para lhe injectarem uma combinação de fármacos (ansiolíticos, anestésicos, indutores do coma e bloqueadores musculares).
Noelia Castillo não teve uma vida fácil. A desatenção de que foi vítima por parte da família depois do divórcio dos pais, quando contava 13 anos, teve como consequência diversos episódios de violência sexual e tentou o suicídio por diversas vezes. Em Outubro de 2022 foi vítima de uma violação em grupo e tentou morrer atirando-se de um quinto andar. Só conseguiu ficar paraplégica sem retorno à normalidade dos movimentos em tempo algum.
A eutanásia foi-lhe autorizada em Julho de 2024 por apresentar uma situação clínica “não recuperável produzindo-lhe dependência grave, dor e sofrimento crónico e impossibilitante” o que estava de acordo com a lei que a autorizava a abandonar a vida por vontade própria.
O resto da espera não passou de folclore embelezante de atitudes religiosas que nada tinham a ver com a vontade da única proprietária daquela vida, que era, apenas e só, Noelia Castillo.