Estamos a preparar jovens para um mundo que já não existe

Disseram-nos que havia um caminho. Estudar, tirar boas notas, entrar na universidade,
arranjar um bom emprego. Durante décadas, esta narrativa funcionou como um contrato
silencioso: faz a tua parte e o futuro tratará do resto. O problema é que o contrato não
foi oficialmente cancelado, apenas deixou de ser cumprido.
Hoje, continuamos a empurrar jovens para esse guião, mesmo quando os resultados já
não são garantidos. E, talvez mais surpreendente, começamos também a vendê-lo a
quem já está a meio da vida: adultos com mais de 40 anos, com filhos,
responsabilidades financeiras, rotinas estabelecidas, a quem se diz que “voltar a
estudar” pode ser a chave para recomeçar.
A questão é simples, mas desconfortável: será mesmo?
A escola continua a preparar para um mundo previsível que já não existe. Ensina a
seguir regras, a memorizar conteúdos, a cumprir etapas. Mas a vida real, tanto para
quem tem 20 como para quem tem 45, exige outra coisa, capacidade de adaptação,
leitura de contexto, tomada de decisão sob incerteza. Competências que raramente
aparecem num currículo formal.
Ao mesmo tempo, o peso das expectativas não desaparece com a idade, transforma
se. Se antes era “tens de ser alguém”, mais tarde passa a ser “ainda vais a tempo de
mudar”. A pressão mantém-se, apenas muda de forma. E com ela vem uma nova
promessa: a de que investir numa licenciatura pode abrir portas, desbloquear carreiras,
corrigir trajetórias.
Mas esta promessa merece ser questionada.
Para um adulto com mais de 40 anos, tirar uma licenciatura não é apenas uma decisão
académica, é uma decisão estrutural. Implica tempo que deixa de existir para a família,
energia que já está dividida, e muitas vezes um custo financeiro significativo. E tudo isto
sem garantia clara de retorno.
O mercado de trabalho não é neutro em relação à idade. Em muitos setores, a
experiência conta, mas a idade também pesa. Recomeçar do zero, competir com recém
licenciados, entrar em áreas onde a progressão é lenta, pode significar anos de
instabilidade. E há uma realidade difícil de ignorar: um diploma não anula o risco.
Isto não significa que não valha a pena. Em alguns casos, pode ser transformador.
Profissões regulamentadas, mudanças de carreira bem pensadas, objetivos concretos,
nesses cenários, a formação formal pode ser uma ferramenta poderosa. Mas esses
casos são específicos. O problema é tratar exceções como regra.
Há uma ideia confortável, quase inspiradora, de que “nunca é tarde para recomeçar”. E,
em teoria, é verdade. Mas na prática, recomeçar tem custos. E ignorá-los não é
motivação, é desonestidade.
Num mundo em constante mudança, talvez a questão já não seja apenas “vale a pena
ir para a universidade?”, mas “para quê, exatamente?”. O valor de uma licenciatura
deixou de ser universal. Tornou-se contextual, estratégico, dependente de objetivos
claros e realistas.
Para muitos adultos, outras formas de aprendizagem podem fazer mais sentido:
formações mais curtas, competências práticas, reconversões focadas. Caminhos
menos lineares, menos prestigiados, mas, muitas vezes, mais eficazes.
O verdadeiro problema não está em estudar, nem em querer mudar de vida. Está em
continuar a vender a universidade como solução padrão para problemas que são, na
sua essência, mais complexos. Está em aplicar o mesmo guião a realidades
completamente diferentes.
Talvez esteja na altura de aceitar que não há um único caminho, e que insistir nisso
pode fazer mais mal do que bem. Porque, no fim, o risco não é apenas escolher o
percurso errado. É acreditar numa promessa que já não se cumpre, e descobrir isso
tarde demais.