Escutar o Vento

V – O vento fala se alguém quiser ouvir…
O vento uivava do lado de fora como se tivesse histórias para contar. Marta e Tomás sentaram-se perto da janela grande da sala e, na mesma direção olhavam-no a brincar com os ramos das árvores despidas. Cada rajada fazia a cortina dançar, cada sopro parecia mover o mundo sem pedir permissão.
Tomás apertou o cachecol à volta do pescoço e perguntou: “Por que o vento faz tanto barulho, mãe?”
Marta sorriu, olhando para ele com ternura. “Talvez o vento queira ser ouvido. Talvez só queira lembrar-nos de que há coisas que não controlamos.”
Tomás ficou pensativo. Depois, encostou-se ao vidro, observando os flocos que se misturavam à chuva fina, parecendo uma renda de bilros. “É como se ele falasse com a neve.”
“Ouvimo-lo sem perceber completamente o seu murmúrio. Talvez seja isso que ele quer de nós…” anuiu Marta.
Ficaram ali, em silêncio, escutando. Cada sopro lembrava-lhes da força invisível da natureza, da passagem do tempo, da fragilidade de tudo o que parecia sólido. Mas também lembrava da beleza de existir mesmo quando não se entende tudo.
O inverno não era apenas frio ou silêncio. Era vento que ensinava, presença que alertava, momentos que pediam atenção. Tomás respirou fundo e sorriu. “Eu gosto do vento, faz a casa parecer mais segura.”
Marta apertou-lhe a mão, dizendo: “E é isso que importa. Que nos sintamos seguros, mesmo quando o mundo lá fora se agita.”
O vento continuou a soprar, mas dentro da casa havia paz.
O inverno estava lá, não apenas fora, mas dentro deles também, como presença viva, como convite a escutar e sentir.
Continua