Era da Inteligência Artificial – Ensinar a Aprender – Por Clara Boavista

Sabemos que atualmente é possível encontrar tudo — ou quase tudo — na internet em apenas alguns segundos. Contudo, se pretendermos entender verdadeiramente algo, teremos de questionar, investigar e refletir sobre a informação que nos é facilitada.
A Inteligência Artificial (IA) entrou de rompante no nosso quotidiano e, em pouco tempo, ferramentas como o ChatGPT deixaram de ser curiosidades tecnológicas para se tornarem auxiliares de estudo — ou, segundo alguns professores, novas formas de copiar trabalhos.
E é precisamente esta dualidade, entre risco e oportunidade, que impacta a forma como o sistema educativo português encara o futuro. A escola tem de decidir rapidamente se encara a IA como uma ameaça ou como uma aliada. A tentação inicial de proibir a IA na sala de aula pode ser considerada um erro — tal como, no passado, aconteceu com a utilização das calculadoras.
A geração que atualmente frequenta o ensino básico viverá um mercado de trabalho em que a aplicação de máquinas inteligentes será inevitável e altamente vantajosa, pelo que a chave reside em integrar a tecnologia de forma pedagógica. Preparar os alunos para um futuro no qual a IA possa servir para personalizar a aprendizagem, ajudando todos aqueles que possuem mais dificuldades — adaptando-se às características e aos ritmos de cada um — não é apenas uma questão tecnológica, mas sobretudo pedagógica.
Por outro lado, a maioria das escolas continua a promover um modelo de ensino que valoriza a memorização e a reprodução de conteúdos. Perante este facto, e com um motor de busca avançado capaz de produzir textos, resumir livros, resolver questões e dar respostas a uma infinidade de temas em apenas alguns segundos, este paradigma de ensinar está em risco. Ora, esta situação remete-nos para um plano no qual importa refletir sobre o que significa, de facto, aprender.
É factual que a tecnologia avança a um ritmo muito expressivo, mas o papel humano torna-se, mesmo assim, ainda mais crucial. Cabe ao professor adquirir novas competências e ensinar os alunos a utilizar a IA de um modo crítico e ético, alertando-os para o reconhecimento das informações fidedignas e levando-os a refletir sobre a originalidade do conhecimento e os limites da automação — é imprescindível que os alunos saibam pensar por si.
Num mundo em que o conhecimento se multiplica a passos largos, a verdadeira literacia passou a ser saber onde encontrar a informação, como validar a sua credibilidade e de que modo a utilizar em novas situações — e também aqui é primordial saber como fazer perguntas pertinentes.
Contudo, a escola continua demasiado presa ao modelo da transmissão de conhecimentos, visando a memorização e a sua implacável reprodução nos testes de avaliação. Inverter esta lógica para subscrever o verdadeiro objetivo da educação implica transformar a sala de aula num espaço de debate, experimentação e participação: um verdadeiro laboratório de aprendizagens.
Ensinar a aprender passa a ser fundamental para estimular e acompanhar cada aluno no desenvolvimento da curiosidade, autonomia, resiliência e sentido crítico. Trata-se de um desafio exigente, mas também estimulante — uma oportunidade decisiva para revitalizar a profissão docente.
A utilização de metodologias que hoje são aplicadas de forma pouco consistente, como a aprendizagem baseada em projetos, o trabalho interdisciplinar e a integração da tecnologia, pode vir a fazer toda a diferença neste processo.
Durante décadas, a escola privilegiou a memorização, mas hoje é indubitável que este modelo está ultrapassado e já não se adequa à realidade contemporânea. Há que dotar os alunos de ferramentas para que eles próprios sejam agentes ativos no processo de aprendizagem. Também os pais e encarregados de educação têm de acompanhar a evolução dos tempos e não dificultar este processo de mudança, face a uma realidade que conhecem, mas que já não existe.
Investir numa educação que forme cidadãos responsáveis e críticos não é uma opção: é uma premissa para o progresso sustentável do nosso país. Tal como John Dewey afirmou, “se ensinarmos os alunos de hoje como ensinámos os de ontem, roubamos-lhes o amanhã.”