Empreender é resistir – Por Rui Rodrigues

Há uma narrativa dominante sobre o empreendedorismo que nos mostra o início. A ideia, o pitch, a marca que se lança, o entusiasmo do primeiro cliente. Mas há uma outra dimensão, mais crua, mais exigente, e muito mais reveladora da verdadeira essência de empreender. A capacidade de resistir.

Jorge Duro é empresário há mais de trinta anos. Criou e consolidou a JDM – Caixilharias e a Prowin, uma unidade fabril, na região centro de Portugal, em Colmeias – Leiria, com presença ativa no mercado internacional e que mantem dezenas de postos de trabalho. O que o distingue não é o tempo de atividade, mas o modo como tem sabido preservar o seu projeto com disciplina e visão.

Há sete meses, um erro técnico cometido pela E-Redes injetou na sua empresa uma tensão elétrica de 380 volts, quando o normal seriam 220. O resultado? Devastador! Equipamentos queimados, produção paralisada, prejuízos que ultrapassam os 450 mil euros, sem que até à data tenha recebido qualquer indemnização. Encomendas para países como Marrocos e Suíça foram canceladas. A confiança construída ao longo de décadas, colocada em causa por um erro externo. E, no entanto, a empresa continua de pé. Os colaboradores continuam ao serviço. E o líder continua a lutar.

O que significa, afinal, ser empreendedor?

Ser empreendedor não é apenas abrir empresas. É carregá-las ao colo quando o sistema falha. É manter compromissos quando os seguros se arrastam. É o ajuste dos modelos de produção sem comprometer os salários. É, na sua essência, colocar-se entre a falha estrutural do sistema e a desproteção dos seus.

E se, em vez de uma empresa com três décadas de experiência, estivéssemos a falar de um negócio nascido há seis meses? Que margem teria? Que estrutura? Que rede de apoio? A resposta é simples. Não resistiria.

Precisamos de políticas públicas e estruturas de suporte que compreendam esta realidade. A cultura empreendedora que se quer promover exige incentivos à criação, sim. Mas exige também proteção à continuidade. Exige rapidez na resposta institucional, sensibilidade na mediação de conflitos e, sobretudo, respeito por quem sustenta a economia real com trabalho, suor e por vezes, lágrimas.

O caso do Sr. Jorge Duro não é excecional porque houve um erro. É excecional porque existe resistência à altura do erro. Porque, mesmo com tudo a empurrar para a suspensão, escolheu continuar e porque continuou, sem barulho mediático, sem dramatismo performativo, sem capitular perante a inércia institucional, e imprimiu na palavra “empreender” o seu significado mais íntegro, o de suportar o mundo às costas quando o mundo vira as costas.

Ao Estado, às instituições e às comunidades empresariais, cabe decidir se vamos continuar a construir um país onde só se protege quem ainda não caiu, ou se estamos prontos para erguer de novo quem nunca se deixou tombar.

Empreender não é só começar. É resistir. E, por vezes, é resistir por todos os outros.