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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Em nome do Livro

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Escrevo no convencionado Dia Mundial do Livro, depois de ter visto na RTP3 o episódio 16 da série A Vida Privada dos Livros que Alberto Manguel decidiu dedicar a L´Assomoir, um dos romances mais célebres da série naturalista Rougon Macquart da autoria de Emile Zola.

Em conversa com a apresentadora e entrevistadora Ana Daniela Soares, Alberto Manguel procura explicar ao espectador as razões da sua escolha e da importância que reconhece a esse romance, no contexto da literatura francesa, europeia e mesmo universal.

Por sua vez, Ana Daniela Soares acrescenta ter a sensação de que Emile Zola é um autor que parece estar afastado do interesse dos leitores portugueses na actualidade e arrisca mesmo a opinião de que parece ter caído no esquecimento em Portugal a língua e cultura francesas.

Tudo isto não se estranharia não fora o facto de não haver qualquer alusão, ao longo de todo o programa, a outro facto não desprovido do maior interesse para o espectador atento e interessado: o de o romance estar traduzido em português sob o título A Taberna.

Se não se afigura fácil salvar a língua francesa da manifesta perda de terreno face ao alastramento da língua inglesa na comunidade internacional, mas se entende (justamente) importante e pertinente reavivar o interesse por uma das obras a seu tempo mais polémicas de Zola, importa no mínimo fornecer aos potenciais leitores portugueses a indicação do título da obra traduzida na sua própria língua.

Não parece razão bastante, para o omitir no referido programa de divulgação cultural, o facto de não se encontrar no comércio de livros novos uma (re)edição de A Taberna, pois não é difícil a um interessado encontrar no mercado de livros usados um exemplar das edições que foram postas à venda em Portugal. Encontram-se mesmo várias capas diferentes para as edições que uma das editoras fez deste romance.

Por curiosidade, vi depois também o episódio 15 de A Vida Privada dos Livros, dedicado a A Rebours, romance igualmente polémico (e seminal) do francês Joris-Karl Huysmans, para verificar que também no seu caso não foi feita qualquer alusão ao título da obra editada em tradução portuguesa, nomeadamente Ao Arrepio, encontrável no comércio de livros usados.

E teria concluído que os autores do programa só consideram dever divulgar nele títulos de obras traduzidas em português que se encontrem à venda no mercado de livros novos se não tivesse ido ver o episódio 15 da série cujo tema foi o também polémico In Cold Blood, de Truman Capote.

A Sangue Frio, título da tradução portuguesa também não foi mencionado, mas tal razão já não cabe no seu caso pois o livro está à venda no mercado de livros novos.

Considero ser muito meritório divulgar aos portugueses episódios da vida privada dos livros, mas mais meritório ainda desocultar aspectos essenciais da vida de certos livros, designadamente dando aos portugueses pistas claras, quando existam, para que os leiam na sua língua materna, caso não possuam as competências necessárias para o fazerem na língua original em que foram publicados.
E assim comemoro o Dia Mundial do Livro.

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