É preciso lembrar que a rua não é casa para ninguém – Por Rosa Fonseca

Um destes dias, passou novamente na minha rua. Continuava de rosto encubado e corpo magro. Na mão, os apetrechos de sempre, uma mochila velha e um guarda-chuva — talvez a proteja de todas as tempestades.

E as tempestades vêm todas as manhãs quando a cidade acorda com pressa. Quando bem cedo os cafés abrem, quando os carros enchem as ruas e os passos apressados desenham caminhos invisíveis pelas calçadas. Uma rotina diária que todos conhecemos, contudo, há quem já esteja acordado muito antes disso — quem não tenha sequer adormecido. São os que dormem entre o frio das pedras e o ruído persistente da indiferença.

Todos sabemos quem são. Os “sem-abrigo”, como se isso definisse tudo o que são. Mas nenhum rótulo consegue abarcar a complexidade de uma vida. Não são apenas sem casa; são, muitas vezes, sem voz, sem escuta, sem nome. A sua identidade sumiu-se a cada passo ao relento.

Passamos por eles todos os dias: deambulam pela cidade sem horizonte no olhar, agarrados aos seus haveres, encostados a prédios onde ninguém os convida a entrar. Pedem pouco — às vezes um gesto, um olhar, um bom-dia que interrompa o silêncio que os circunda.

E, nós, quantas vezes desviamos o olhar e apressamos o passo, para que não tenhamos um confronto visual.

Mas a Sara, quando me aproximo aceita o meu olhar e retribui com uma doçura escondida. Conversamos algumas vezes e diz-me que o problema não é só a falta de teto. É o esquecimento.

É o vazio entre quem dorme na rua e quem vive entre paredes quentes. É a normalização do sofrimento à vista de todos.

Como dói cada palavra que a Sara soletra…como dói a impotência e a falta de estímulos para podermos, juntas, amenizar a sua vida. A Sara está há muito tempo na rua e por vontade própria não se vê a mudar…

Mas a verdade é que não se chega à rua por escolha. Muitas vezes, chega-se por uma sucessão de perdas: emprego, família, saúde, esperança. O limite entre “nós” e “eles” é mais frágil do que gostamos de admitir. São muitos os fatores que nos podem virar a vida do avesso.

A Sara, com o rosto escondido, é uma figura que se repete na minha rotina, uma presença que, apesar de invisível para muitos, tem uma força própria. Talvez seja uma sobrevivente, alguém que aprendeu a encobrir as dores, a proteger-se do mundo com o seu próprio escudo de silêncio.

A Sara vai continuar a passar na minha rua. Hoje chove e o seu guarda-chuva protegê-la-á de muitas sombras e incertezas. E na mochila velha, sei que carrega mais do que objetos: carrega memórias, sonhos adormecidos e mais do que isso, uma esperança que insiste em não morrer.

É preciso lembrar que a rua não é casa para ninguém.