E os portugueses? Na rua!… – Por António Ferro

Vim residir para o Porto há 39 anos e como neste momento tenho 65, sou mais portuense que alfacinha…

Quando cheguei, o Porto era uma cidade tranquila, hospitaleira e afetuosa. No início, as pessoas não se exteriorizavam, muito, eram mais retraídas e introvertidas, e menos “porreiras” do que as pessoas da capital. Aos poucos, os laços começaram-se a estreitar e a confiança começou a ser um valor verídico, leal e sentido. Quando um conhecido se transformava em amigo, era um amigo que se podia contar para toda a vida!

A qualquer hora do dia ou da noite, podíamos transitar pelas ruas da cidade que a seguridade e a tranquilidade eram garantidas. Os anos foram esvoaçando e o meu sector foi provavelmente o que mais se ressentiu com a chegada dos brasileiros. Apresentavam-se nos bares e afins, em troco de poucos euros, ou apenas de refeições diárias, e nós? Os portugueses?…

Ainda me lembro quando o Pedro Urbano irrompeu no Splash com as suas botas de “cowboy” e com o seu chapéu a condizer. E como ele cantava tão bem as músicas brasileiras, ninguém iria desconfiar que era filho de um professor catedrático conimbricense! Tinha o sotaque e os trejeitos de um verdadeiro brasileiro…

Depois, morosa e paulatinamente, outras etnias escolheram o Porto como sua cidade!

E deu-se o “boom” do turismo, eu próprio tirei uma formação de turismo e estive a estagiar quinhentas horas, numa empresa com grande potencial financeiro. Fiquei deveras admirado com o que a empresa auferia diariamente e ainda mais com as percentagens que os seus colaboradores levavam para casa diariamente (gorjetas)…

Foi aí que me apercebi da oferta desmedida que se oferecia.

Hotéis, Hostéis e  Al´s, abriram por todo o Porto. Os barcos que anteriormente estavam encostados às margens, passaram a circular no circuito das sete pontes, lojas de oferta de regalos e recordações começaram a abrir, esquina sim e esquina não…E quem eram os proprietários? Portugueses?…

Os restaurantes começaram a oferecer outras ementas, referentes a outros continentes… Para os portugueses, o custo de vida subiu muito consideravelmente! Alguns dos lindos monumentos da cidade, começaram a ser pagos para uma curta visita. Chegou ao cúmulo de me pedirem dinheiro para entrar numa igreja!

Meu amigo, sou católico e apenas quero entrar para rezar!

Se entrar, tem que pagar para visitar a igreja!

Eu não preciso de visitar a igreja, já a conheço há mais de trinta anos!

Resolvi para descontrair, dar uma caminhada até à Foz.

Já há muito que não visitava o “Castelo do Queijo”, a última vez, foi quando toquei para uma passagem de modelos…

São cinquenta cêntimos! Este espaço é dos Comandos”, diz um rapaz que estava à porta.

Cinquenta cêntimos, mas esse valor é o que despendemos nas casas de banho das estações ferroviárias e de camionagem…

São ordens! E não posso abrir exceção.

Obviamente que o aluguer das casas duplicou e triplicou…E para nós, os portugueses?

Quando estagiei na empresa de turismo, guiei durante umas semanas, um lindo calhambeque vermelho. Um dos pontos de paragem, era o renovado mercado do Bolhão. Parabéns ao arquiteto que fez toda a remodelação do espaço, está lindo de se ver! O seu interior aumentou a oferta com artigos e ingredientes que o seu passado não conheceu…Mas, sinceramente, penso que existe um equilíbrio e uma constância de todo o amplo espaço. E de onde são os melhores arquitetos portugueses?

Agora os valores de compra estão muito bem para a capacidade económica e financeira dos turistas, e para nós? E para os portugueses?…

Quando uma mulher está grávida, começa a reparar mais nas outras mulheres, também grávidas! Ou seja, fica com a nítida sensação que vê mulheres grávidas por todo o lado… Eu agora que estou a viver no Albergue de Campanhã, comecei a reparar mais nos “sem teto” e nos “sem abrigo”.

Mas há diferenças?

Há! Um “sem teto” é o que eu sou neste momento, vivo num albergue! E quem vive num albergue ou noutra casa de acolhimento, é um “sem teto”, enquanto uma pessoa que vive na rua, é um “sem abrigo”.

Agora pergunto, se deambularem pela cidade, quem veem na situação de “sem abrigo”? Apenas portugueses caucasianos! As outras etnias, e começam a ser demasiadas, essas vivem ou sobrevivem de subsídios e alguns superiores aos dos portugueses. Neste momento estão-me a “crucificar”…

O Ferro está com pensamentos racistas e xenofóbicos…

Não! Eu apenas queria que os portugueses tivessem os mesmos direitos e estivessem economicamente equiparados com os turistas que nos visitam!

E quando a “febre” do Porto passar, porque os turistas são de modas e ficarmos reduzidos aos portugueses…Vai acontecer como no Algarve? Os empregados de mesa que há uns anos só sabiam falar inglês, hoje em dia, já falam português!…

Há uns dias, fui assaltado no Campo 24 de Agosto no Porto, por quatro!…(marroquinos ou paquistaneses…), três com facas tipo Rambo e um de taco de basebol. Embora eu já tenha iniciado o mês passado a arte marcial de Krav Maga, ainda não cheguei à defesa de facas e de pistolas…Preferi não ser herói e perder o telemóvel, o relógio e quarenta euros, mas ficar vivo!

Tenho saudades das francesinhas que comi num dos melhores locais ,o Mucaba em Gaia, será esse o nome? O S. João que não era tão espalhado e disperso pela cidade, baixa e as Fontaínhas… Do Splash que dava, diariamente, concertos no Centro Comercial Dalas. Foi lá que tive o privilégio de acompanhar o Wynton Marsalis e o Al Di Meola!

Dos almoços completos a 3.75 euros (sopa, prato principal, bebida e café).

Sobretudo, tenho saudades desses portugueses desmedidos que atravessaram mares e oceanos, que deram ao mundo novas “paragens” e que agora estão a ser invadidos por toda a “escumalha” que os países de origem libertam…

Sou amigo de muitos cabo-verdianos (Beleza e cachupas, foram muitas noites bem passadas), sou amigo de ciganos e até toquei na Praça da Alegria com alguns que me ficaram na memória. Vivi dezasseis anos com uma angolana! Conheço a maior parte dos países asiáticos, um pouco devido ao disco (Sinais de Yuanju) que gravei com o mestre Wong On Yuen. E por todos os países que visitei, fiz amigos!

Adorei a minha deslocação a Moçambique, onde atuei com a Mónica Ferraz!

Se me convidassem para viver lá, não hesitaria um segundo…Nunca conheci gente tão educada e tão amistosa…

Por isso, não me venham com essa que sou racista, pois quer nós queiramos ou não, todos temos alguns, mesmo que poucos, sentimentos racistas embora muito escamoteados…

Experimentei uma viagem de comboio do Rossio para Sintra e contem quantos portugueses estão no interior das carruagens!…

E os portugueses?…