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Quinta-feira, Maio 23, 2024

É a mãe lentamente a largar o chão

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

A mãe é e será sempre o nosso ponto de encontro. O ponto de luz. O abrigo que nos acolhe nas tempestades e nas alegrias de um céu claro.
Porque a mãe, não tem prazo de validade. É permanência em nós.

Mas a vida segue o seu rumo e tem dias em que os passos são lentos, outros há, em que são intensos invernos que arrastá-los, é como se toda uma vida viesse atrás e as lembranças a tocassem de novo. E as pequenas alegrias a vestissem de um cetim reconfortante. E se a vida pouco lhe prometera, tinha-a hoje, na serenidade do tempo que passa.

No vagar dos passos a atravessar a rua que já a deixa confusa, o movimento de ir e vir dos carros, as vozes das pessoas, são ruídos que lhe trazem inseguranças. Um desmoronar lento. Aos poucos, foi criando um muro ao redor de uma vida que volta e meia, diz não o ser. As dores deixam-na prostrada e frágil. Muito pouco a faz regressar à célula familiar que já é muito restrita.
Entre os temporais oscilantes de um quotidiano que viveu, sobressaem uns olhos de amor.
É a mãe!

A mãe dos dias soalheiros e domingos em flor.
Não sejamos acanhados nos gestos e nas palavras. Ela precisa sentir que continua a ser a rainha. A casa. O esteio. O farol. Os ventos mansos. Um mar que nunca acaba, eterno mar – A mãe.

Ela espera pela nossa mão para a amparar e seguir no inverno dos dias.
Tudo passa num galope sem freio. Vemos o seu corpo fraco que se oculta por detrás da boca de cantos descaídos e olhar em nuvem. E as vozes e os lugares cada vez mais longínquos. A vida não é mais que uma demorada espera. Um trilho sempre igual e cendrado. Como se tudo e todos tivessem emigrado e as árvores mortas fossem a única estação.

Nas suas pernas arrastadas já não há direção. Nada encontra no curto caminho entre as quatro paredes que a albergam. Nem vestígios de camélias. Já não pergunta por elas e mantem as jarras vazias.
É a mãe lentamente a largar o chão. Um silêncio entranhado dentro de nós.
Às vezes só queremos um dia de sol e ver a mãe a acenar às alegrias breves… muito breves.

É tão preciso levar a mãe pela mão, revisitar a infância e permanecer naquele espaço comum – comum de sóis alongados pelo corpo. Vislumbrar as coisas simples de uma tarde à beira mar, uma noite de Natal – os cheiros, os sabores, a luz. A vida.
Ser família. É a mãe. Somos nós. Os filhos.

É para eles que os seus pensamentos se encaminham. Todos os dias nas aves-marias ao final da tarde.
Somos parte de um tempo com prazo limitado. É o tempo a fugir-nos em todos os invernos sem camélias.

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