De Camões a Calões: A Morte da Caneta e o Nascimento do “Português de Algoritmo”

Se Luís Vaz de Camões levantasse a pala hoje e visse o que estamos a fazer à “Língua
Portuguesa”, provavelmente pediria para voltar para o naufrágio, mas desta vez sem o
manuscrito d’Os Lusíadas. Vivemos na era do Luís Calão, não o calão das ruas, que
sempre teve a sua graça e vivacidade, mas o calão da preguiça mental, patrocinado por
corretores ortográficos e inteligências artificiais que pensam por nós.

A Relíquia do Lápis

Houve um tempo, que os historiadores chamam de “antiguidade tardia” (há cerca de dez
anos), em que as crianças usavam um objeto cilíndrico de madeira chamado lápis.
Escrever à mão não era apenas um exercício de caligrafia, era um processo cognitivo.
Estudos científicos recentes confirmam que o movimento do traço manual ajuda a fixar a
ortografia e a estrutura da frase. Hoje, porém, o papel é visto nas escolas como uma
tecnologia obsoleta, quase tão arcaica quanto o papiro. Os tablets substituíram os
cadernos, e o toque tátil substituiu o esforço do punho.

O Corretor: O Melhor Amigo do Erro

A grande ironia é que, quanto mais ferramentas temos para escrever “corretamente”, pior
escrevemos. O Microsoft Word e os teclados preditivos dos telemóveis tornaram-se as
nossas muletas intelectuais. Já ninguém se preocupa se “exceção” se escreve com “ç” ou
“ss”. Para quê? O corretor trata disso. O problema é que o corretor não tem alma, nem
contexto. Ele corrige a palavra, mas assassina a sintaxe.
Estamos a criar uma geração que não escreve, mas sim “valida” sugestões de um
algoritmo. O resultado? Um português genérico, sem sabor, que o estudo da Exame (2025)
já descreve como um “ciclo de retroalimentação”: a IA treina-se com os nossos erros e
nós passamos a escrever como a IA, num abraço de mediocridade mútua.
“Cantando espalharei por toda a parte…” dizia o poeta. Hoje, se Camões usasse o
ChatGPT, o verso seria provavelmente: “Gostaria de informar que os meus conteúdos
serão partilhados de forma otimizada em todas as plataformas.”

Do Épico ao Automático

A passagem de de Camões a Calões é o símbolo desta transição. Trocámos a métrica
pela pressa e a gramática pela conveniência. Se dantes a escrita era um reflexo do
pensamento, hoje é muitas vezes apenas o resultado de um autocompletar.
É irónico que, num tempo em que nunca se escreveu tanto (em mensagens, posts e e
mails), a qualidade do que se escreve nunca tenha sido tão pobre. Estamos a desaprender
a língua para aprendermos a usar a ferramenta. Se continuarmos assim, o próximo grande
épico português não será escrito com “engenho e arte”, mas sim com um “clique e aceite”
nas sugestões de um corretor qualquer.
Camões perdeu um olho, mas nós, com os dois bem abertos e colados ao ecrã, parece que
estamos a perder o norte à nossa própria língua.