“Damas” – As mulheres portuguesas no cenário da 1ª guerra mundial

Produzido pela Ukbar Filmes, “Damas” é um filme-documentário centrado na história das jovens “damas enfermeiras”: mulheres da alta sociedade que desafiaram os limites sociais e políticos do seu tempo para servir em França, ao serviço da Cruz Vermelha Portuguesa, durante a Primeira Guerra Mundial.

Numa época em que as mulheres não possuíam plenos direitos políticos e sociais, estas voluntárias enfrentaram os preconceitos do seu próprio tempo. Inspiradas pelos debates europeus sobre emancipação feminina e pelos movimentos sufragistas, procuravam um propósito que ultrapassasse os limites impostos pela sociedade portuguesa do início do século XX.

O filme acompanha o percurso das damas enfermeiras desde o treino no Hospital da Junqueira, em Lisboa, até à viagem para França. Perante a necessidade de prestar apoio médico junto da frente de batalha, estas mulheres tiveram de abandonar o conforto da capital e adaptar-se à dura realidade da guerra. Apesar dos preconceitos e da assumida resistência por parte da República Portuguesa — que não lhes reconhecia mérito e considerava que se estavam “a meter em assuntos de homens” —, elas conseguiram construir o hospital de Ambleteuse, uma comuna situada entre Calais e Boulogne-sur-Mer.

A inauguração do hospital, com capacidade para cerca de 600 camas, aconteceu a 9 de abril de 1918, precisamente no dia em que começou a Batalha de La Lys, uma das datas mais trágicas da história militar portuguesa. Essa coincidência histórica transforma-se no filme numa poderosa metáfora: enquanto Portugal sofria uma derrota devastadora, aquelas mulheres davam um passo decisivo na conquista de autonomia e reconhecimento.

Ao longo do documentário, Cláudia Alves cruza material de arquivo, encenação, voz-off e imagens filmadas em Super 8. O resultado é uma linguagem híbrida entre documentário e ficção, que procura recuperar não apenas factos históricos, mas sobretudo a intimidade emocional destas mulheres esquecidas pela memória oficial.

Uma das figuras centrais é Maria Inês, personagem ficcional que não existiu historicamente, mas que serve como síntese íntima das experiências reais das damas enfermeiras. Através da voz dela, o filme explora as dúvidas, contradições e inquietações de mulheres divididas entre o dever social e o desejo de emancipação. Num dos momentos mais reveladores, Inês questiona-se sobre as sufragistas: “Não estarão a ir longe demais?” A frase resume o conflito de uma geração que começava a imaginar novas possibilidades de liberdade feminina, mas ainda carregava os receios morais do seu tempo.

A origem de “Damas” está ligada a uma descoberta inesperada. Durante a preparação do documentário “A Vida nas Trincheiras”, realizado para a RTP, Cláudia Alves encontrou no sótão da sede da Cruz Vermelha Portuguesa, nas Janelas Verdes, uma pasta sem catalogação. No interior estavam cartas manuscritas e datilografadas, telegramas, fotografias, plantas do hospital, folhas de serviço e regulamentos das damas enfermeiras portuguesas em Ambleteuse.

Esse espólio revelou uma narrativa praticamente ausente da historiografia tradicional. Quase tudo o que sabemos sobre a Primeira Guerra Mundial chega-nos através de vozes masculinas — soldados, oficiais, políticos ou jornalistas. “Damas” procura precisamente contrariar esse silêncio, colocando finalmente estas mulheres no centro da memória.

Mais do que recordar enfermeiras portuguesas na guerra, “Damas” propõe uma reflexão contemporânea sobre o lugar das mulheres na História e sobre todas aquelas cuja contribuição permaneceu invisível. O hospital de Ambleteuse foi desmantelado em 1919 e hoje nada assinala a presença destas voluntárias em França. O filme surge, assim, como um gesto de reparação histórica — uma tentativa de devolver voz, rosto e memória a mulheres que ousaram atravessar fronteiras num dos períodos mais violentos do século XX.