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Domingo, Julho 14, 2024

Da militância de convicções aos “interesses” pessoais: os anónimos que fazem mexer a campanha dos partidos políticos

Evitam “demasiada exposição”, apenas prestam testemunho sob anonimato e na condição dos partidos aos quais estão filiados não serem mencionados. Questionadas as razões, um dos entrevistados justifica: “o mundo é pequeno e toda a gente se conhece, mesmo entre as diferentes forças partidárias”. O CIDADÃO ouviu três militantes que, da esquerda à direita, integram as caravanas que têm percorrido o país de lés a lés. Agitam bandeiras, alimentam as redes sociais, preparam o terreno para que tudo corra de feição nos comícios. Há quem o faça por convicção e há quem se mova na esperança de conseguir um emprego.

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Abílio Ribeiro
Abílio Ribeiro
Jornalista

A AMBIÇÃO DE TRABALHAR NUM PARTIDO POLÍTICO

A caminho dos 50 anos, A. é militante de um dos maiores partidos políticos desde jovem. Trabalhou nos bastidores de várias campanhas eleitorais, conciliando o trabalho que teve, durante anos, “num gabinete de relações públicas”. Não esconde a relutância em partilhar o seu testemunho, pois “o mundo é pequeno e toda a gente se conhece, mesmo entre as diferentes forças partidárias. Evito demasiada exposição”. No entanto, não se esquiva à maioria das questões colocadas.

Atualmente, A. exerce funções profissionais a tempo inteiro para o partido ao qual está vinculado. Admite que sempre teve essa “ambição”, sobretudo a partir do momento em que se confrontou com “alguma instabilidade” na empresa onde trabalhava. “Sim, ao início houve um interesse pessoal. Mas é natural. Se vês amigos a conseguirem empregos no partido, começas a pensar que o teu caminho pode passar por ali. Não digo que seja fácil. Mas não é impossível chegar onde os outros chegaram”, sublinha.

Nas campanhas, A. é um verdadeiro “faz-tudo”. Agita bandeiras, fala com as estruturas locais por onde a caravana irá passar, coordena militantes e simpatizantes nos comícios.

Numa altura em que a campanha para as eleições de 10 de março entra na reta final, A. acusa “muito cansaço. Não há horas para comer e durmo pouco”. Mesmo assim, garante que se sente realizado. “O ritmo é alucinante, e eu gosto disso, o ambiente entre as pessoas é excelente e sei que tenho de dar o meu melhor, até porque correndo tudo bem isso significa que continuarei a ter o meu lugar no partido”, diz-nos.

QUANDO A CONVICÇÃO FALA MAIS ALTO

Embora de idade mais jovem (a rondar os 30 anos), M. demonstra-se bem ciente das escolhas que faz na vida. Uma delas foi filiar-se num partido político que, apesar de “não ser propriamente histórico”, tem feito um percurso “exemplar”. Quando questionado sobre as razões que levaram M. à militância, a resposta surge-lhe instintivamente: “lá em casa sempre se falou de política, o meu pai já esteve ligado a uma junta de freguesia, e há muito tempo que tenho as minhas convicções políticas e valores bem definidos na minha cabeça”.

Na atual campanha, M. é um dos responsáveis pela gestão das redes sociais do partido para o qual colabora, entre outras tarefas de natureza logística. Diz que chega ao fim do dia “com a cabeça a estourar”. Durante o dia raramente tira os olhos do smartphone ou do computador portátil. “Ando sempre a correr de um lado para o outro, a seguir cada passo do nosso candidato”. Faz pequenos vídeos e fotos, escreve textos para ilustrar os vários momentos da campanha. “Não entrei nisto à procura de cargos ou empregos na política, ao contrário de muitos amigos meus. Podem não assumir isso, mas basta olhar para a maneira como se tentam impor nas campanhas e como atropelam as ideias dos outros. Esta rivalidade interna era escusada, mas são feitios”, frisa M. sem rancores.

“CONFIDÊNCIAS” SOBRE A INTIMIDADE DOS LÍDERES RIVAIS

Tenho 43 anos e estou filiado desde os 20. Podes escrever aí, sem problema. Só não digas qual é o partido, se faz favor”. Direto e sem rodeios, assim é B. na vida e nas andanças políticas. Desempenha funções num órgão autárquico e está “100% dedicado à campanha”. Aliás, soma já várias no currículo. Conheceu de perto diferentes líderes e vai ao ponto de partilhar várias “confidências” sobre líderes de outros quadrantes políticos.  O que nos conta, porém, entra no campo íntimo dos protagonistas a que faz referência. “Sei tudo isto de fontes seguras. Há muita gente que sabe, só que ninguém quer falar”.

A pergunta impõe: qual o interesse de tais “confidências” serem tornadas públicas? “Para desmascarar o cinismo dessas pessoas, que defendem certos pontos de vista e depois, em privado, praticam exatamente o contrário daquilo que apregoam”, replica B. sem hesitações. Reforça que não tem interesse em “alimentar boatos”, afiançando que se trata de “verdades escondidas que revelam o caráter dessa gente. Se digo que sou vegetariano, não tenho de andar a comer bifes às escondidas. Isso seria mentir a mim próprio”, salienta.

A experiência de B. em matéria de campanhas eleitorais confere-lhe à-vontade para abordar temas sensíveis e que “são muito falados quando se aproxima qualquer ato eleitoral. Quem conhece os bastidores como eu conheço, sabe bem que isto é verdade. Difícil é provar aquilo que sabemos. Mas mais vale jogar limpo e pronto”.

PRATICAR A MILITÂNCIA DESDE TENRA IDADE

Embora a amostra seja pequena, quem prestou testemunhou a O CIDADÃO reconhece que integrar as estruturas partidárias desde cedo – quer seja por convicção, quer seja por “interesse” pessoal – faz toda a diferença.

A este propósito, Alexandre Guerra, consultor de comunicação, explica que “se é certo que, num primeiro momento, muitos jovens procuram nos partidos uma “tribo” com a qual se identifiquem (como forma de amplificar a sua voz em termos de intervenção social e, consequentemente, política), é também verdade que a própria natureza das “máquinas” e “caciques” vai corrompendo a matriz que motivou originalmente a militância”.

Alexandre Guerra
Alexandre Guerra, Consultor de Comunicação. Direitos Reservados

O autor do livro “A Política e o Homem Pós-Humano” (publicado em 2014) avança que, desta forma, “da militância das convicções passa-se para a militância dos “interesses”, sobretudo numa lógica de ascensão no seio das juventudes partidárias, que funcionam como antecâmaras para os lugares de poder. Os militantes de causas transformam-se, assim, em “políticos” a tempo inteiro, passando a reger-se por um quadro de obediência e disciplina partidária, onde, por vezes, se sacrificam os ideais pessoais em função da circunstância político-partidária”.

Para Alexandre Guerra, um dos problemas dos jovens militantes tem precisamente que ver com o facto de se “deixarem agrilhoar pelo “carreirismopolítico, desligando-se das componentes da “vida real”, ficando única e exclusivamente dependentes das manobras viciadas dos corredores da política, esperando que um dia a sua recompensa chegue – seja através de um lugar elegível numa lista para deputados, seja numa candidatura autárquica ou num lugar de uma empresa pública ou de Governo”.

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