Da Insensata Revolta e do Efémero Sopro

Que estranha e obscura revolta será esta

que hoje move as vontades,

arrastando os homens por trilhos

de uma desconexão profunda?

Enquanto os vales, em sua muda sabedoria,

parecem sorrir à passagem do tempo,

as montanhas abafam gritos antigos

e as ninfas dos rios entoam cânticos

que o ouvido apressado já não sabe colher.

Digo-vos, com a urgência de quem observa o abismo:

não trilheis esse caminho.

Recusai os pensamentos inquietos

que, sob o disfarce da provocação,

apenas semeiam a discórdia.

A verdadeira harmonia,

aquela que sustenta o espírito,

assemelha-se à folha que oscila,

feliz e leve, no seio da planta;

é a verdade, e apenas ela,

que possui o dom de iluminar as trevas da humanidade.

Urge abandonar a ironia oca

e despir o sarcasmo irritante que corrói as relações.

A palavra, quando digna, e a voz, quando íntegra,

repudiam o cinismo

com a mesma naturalidade

com que a brisa suave rejeita a violência do vendaval.

Quem sois vós, afinal?

Pobres de espírito

ou apenas cativos de uma arrogância mendaz?

Vemos almas perdidas, entregues a emoções em desvario,

deambulando pelas dunas rebeldes

e insanas da mentira,

onde o chão é incerto e o horizonte, falso.

Erguei os olhos e contemplai a serenidade das nuvens;

elas deslizam com a graça de um sorriso infantil,

lembrando-nos de que a paz é o nosso estado mais nobre.

Aquietai-vos, pois, almas em desalinho.

Reintegrai-vos na humanidade

que preza o bem e a concórdia.

Recusai a ofensa fácil e a provocação gratuita.

E se me perguntais por que razão o deveis fazer,

a resposta é de uma simplicidade absoluta:

porque nada mais sois do que um sopro

nesta breve passagem pelo mundo.

A vossa força não vos pertence

por direito de conquista,

foi-vos outorgada pela própria Vida.

Sois seres humildes,

ainda que a vaidade vos diga o contrário.

Foi-vos concedido o livre-arbítrio,

esse cinzel sagrado com o qual podereis,

se assim o entenderdes,

marcar a diferença nesta jornada

por este planeta já velhinho e estropiado

pelas mãos de quem, infelizmente,

nunca conheceu o escrúpulo.