Da arte à propaganda: o perigo que ameaça atravessar o Atlântico

Donald Trump não está apenas a disputar eleições. Está a disputar a própria alma cultural dos Estados Unidos. Ao assumir o controlo do Kennedy Center, demitir conselheiros e filtrar as nomeações para os Kennedy Center Honors de 2025, o presidente americano deixou claro que, no seu governo, a arte não é um território livre — é um instrumento político.

A lista deste ano — Michael Crawford, Sylvester Stallone, George Strait, Gloria Gaynor e Kiss — diz mais pelo que exclui do que pelo que inclui. Ficaram de fora artistas que ousam desafiar ou questionar. Ficaram de fora as vozes dissonantes, os símbolos de diversidade, as histórias incómodas. Trump não escondeu: vetou os candidatos “woke” e quer “corrigir” a direção da instituição. Corrigir, aqui, significa alinhar a cultura com a sua visão de mundo.

E não se trata de um gesto isolado, antes fosse. A ofensiva cultural é mais ampla: cortes ao National Endowment for the Arts, restrições a projectos sobre a diversidade e identidade de género, pressões sobre os museus do Smithsonian para remover conteúdos “não alinhados ”. Até o caso aparentemente menor do retrato pintado por Sarah Boardman — removido da exposição após as críticas pessoais de Trump — faz parte deste clima de intimidação. Não é censura por decreto; é censura pelo medo.
A arte, por natureza, é o motor da liberdade. É espaço para questionar, para incomodar, para imaginar futuros que não cabem nos discursos oficiais. Quando o poder político começa a decidir quem merece palco e quem deve ser silenciado, estamos perante propaganda, e não cultura. É uma lógica perversa e perigosa que, ao contrário do que muitos europeus gostam de acreditar, não é um exclusivo americano.

A velha Europa não está imune. Os discursos que justificam “corrigir” a cultura, “proteger” os valores tradicionais ou “limpar” conteúdos ofensivos já ecoam por este lado do Atlântico. E, tal como nos EUA, apresentam-se com aquelas palavras de ordem sedutoras: patriotismo, identidade, unidade. Mas por detrás delas está o mesmo objectivo — controlar o imaginário colectivo, moldar a memória cultural, e apagar o incómodo.

O perigo é silencioso: quando dermos por isso, as vozes dissonantes ja terão desaparecido e a história será contada apenas por quem esteve no poder. A liberdade criativa não se perde de um dia para o outro. Perde-se devagar, peça a peça, folha a folha, palco a palco, até que fique apenas um coro perfeitamente afinado, que canta a melodia de quem segura o microfone.

Algo de sinistro esta em marcha!

Referências

1. The Guardian – And here is your host … Trump casts himself for Kennedy Center honours (2025).
2. The Daily Beast – Trump Fantasizes About Renaming the Kennedy Center After Himself (2025).
3. PBS NewsHour – Trump says he’s naming himself chairman of the Kennedy Center (2025).
4. Forbes – Trump Takes Over Kennedy Center in War on Woke Programming (2025).
5. Artnet News – Trump’s Impact on the Arts: A Running List (2025).