Cursos Como Pãezinhos Quentes

No meu último artigo escrevi que a educação é infraestrutura. Talvez a mais importante de todas.
Mantenho cada palavra.

Mas hoje acrescento outra. Uma universidade que produz conhecimento e não o coloca ao serviço da vida real está a falhar. Não por pensar demais. Por transformar de menos. E isto precisa de ser dito sem rodeios.

Eu não quero uma universidade fechada dentro de si, protegida por uma superioridade abstrata, distante das empresas, dos territórios, dos trabalhadores, da indústria, da administração pública e dos problemas concretos do país. Mas também não quero uma universidade ajoelhada perante o mercado, a vender cursos como pãezinhos quentes e a inventar ofertas só porque há financiamento para as pagar.

Portugal precisa de outra coisa. Precisa de uma universidade livre, exigente, aplicada e profundamente ligada à economia real.

Meus caros, de que serve tanto conhecimento se ele fica preso em relatórios, teses, plataformas e conferências onde quase todos concordam entre si? De que serve falar tanto de inovação, se as nossas pequenas empresas continuam sem capacidade para inovar? De que serve formar jovens brilhantes, se depois os lançamos no mercado sem contacto real com os problemas das organizações?

Depois estranhamos que saiam do país. Não estranhemos. Fomos nós que lhes mostrámos a porta.

Um jovem qualificado não quer apenas um salário. Quer ter futuro. Quer marcar impacto. Quer sentir que aquilo que aprendeu tem realmente utilidade.

E as empresas também precisam de mais do que apenas experiência acumulada. Precisam de método, de pensamento crítico, de tecnologia.

Somos um país de pequenas e microempresas. A maioria vive sem tempo, sem capital e sem estrutura para digitalizar, inovar ou redesenhar modelos de negócio. Pedimos-lhes produtividade, competitividade e modernização, mas muitas mal têm condições para sair da urgência diária. Ora bem, se a universidade não entra aqui, onde deve entrar? No conforto das conferências onde todos aplaudem diagnósticos que ninguém executa? Não falo de protocolos inúteis, fotografias institucionais sorridentes ou conselhos consultivos que se reúnem uma vez por ano para fingir ligação ao território. Falo de trabalho real. Empresas dentro da universidade. Universidades dentro das empresas. Alunos a resolver problemas concretos. Docentes ligados a desafios empresariais. Conhecimento a sair da gaveta direto para mãos reais, na vida real.

Isto não é vender a universidade ao mercado. É devolver a universidade ao país.

Eu amo ensinar. Talvez por isso me custe ver a educação tratada como títulos a acrescentar ao nome, ou pior, como mercadoria.

Ensinar é acender Luz. É dar às pessoas instrumentos para compreenderem o mundo e coragem para o transformar.

Estudar continua a mudar vidas. Mas aplicar bem o conhecimento pode mudar Portugal.