Crónica de um Mundo que Já Não Aprende

O ataque à Venezuela — qualquer que seja a sua forma, pretexto ou bandeira — é um gesto perfeitamente descabido, um acto de brutalidade disfarçado de estratégia, onde a força vai substituir o pensamento e a ameaça ocupa o lugar do diálogo. Atacar um país não é um sinal de coragem muito menos de lucidez política; é, quase sempre, a prova da falência moral, de quem já não sabe negociar, ouvir ou compreender a complexidade do mundo que diz querer ordenar.
Há algo de obscenamente anacrónico nesta lógica de agressão. Vivemos num tempo em que se proclama informado, tecnológico, avançado, e continuamos a resolver os impasses com a linguagem mais primária da história: a violência. A Venezuela, com todas as suas contradições internas, crises graves e feridas abertas, não é um tabuleiro geopolítico nem um ensaio laboratorial para demonstrações de força. É um país real, constituído por pessoas reais, de vidas que não cabem nos comunicados oficiais nem nas análises de gabinete.
O ataque — seja ele verbal, económico ou como neste caso, militar — revela sempre muito mais sobre quem o executa do que sobre quem o sofre. Expõe a arrogância de quem se arroga de ter o direito de decidir os destinos alheios, como se a soberania fosse negociável e o sofrimento humano um aceitável dano colateral. Nada há de nobre na imposição pela força; há pressa, medo e uma assustadora incapacidade de aprender com a história.
E é precisamente a história que agora se tenta esconder. Porque nada disto é novo. Já vimos este filme noutras latitudes e noutras décadas: intervenções “necessárias”, bloqueios “preventivos”, sanções “cirúrgicas” que acabaram sempre por cair sobre os mesmos — os povos. A linguagem muda, os discursos refinam-se, mas o mecanismo repete-se. Ontem foram golpes apoiados em silêncio cúmplice, hoje são estrangulamentos económicos embrulhados numa moral selectiva. Os lobos são os mesmos; apenas mudaram o pelo e o vocabulário.
A este cenário junta-se o papel vergonhoso de grande parte da imprensa europeia: previsível, alinhada, obediente. Uma imprensa que se diz livre mas comenta como vassala, repetindo fórmulas gastas e análises “equilibradas” que, na prática, legitimam o inaceitável. Condena-se com cuidado, relativiza-se com eufemismos, justifica-se com um léxico técnico aquilo que, noutros contextos históricos — hoje convenientemente esquecidos — teria sido chamado pelo nome certo. Já não se informa: gere-se narrativa e apaga-se memória.
E no fundo deste discurso hipócrita surge a Argentina como aviso trágico e exemplo ignorado. Um país devastado, economicamente exausto, socialmente fragilizado, sem pilares sólidos que sustentem o presente ou o futuro. Também aí a história é incómoda: ciclos de endividamento, receitas impostas de fora, promessas de salvação que resultaram em colapso. O que foi sofrimento concreto transforma-se, nos comentários actuais, em “ajustamento”, “inevitabilidade”, “lição”. Os mesmos actores, os mesmos interesses, o mesmo desfecho. Os lobos reconhecem-se pelo rasto.
Tudo isto diz muito sobre o estado do mundo. Um mundo exausto, curto de memória e longo em cinismo. Um mundo onde se reescreve o passado para justificar o presente, onde se apagam as responsabilidades históricas para legitimar as novas agressões. O poder tornou-se impaciente, a ética descartável e a história um incómodo a varrer para debaixo do tapete.
Insistir no ataque à Venezuela, normalizar a ruína da Argentina e silenciar os paralelos históricos não é apenas um erro político — é a reincidência moral. É a prova cabal de que aprendemos muito pouco ou nada com o que já aconteceu. Os nomes mudam, os cenários adaptam-se, mas os lobos são os mesmos. E enquanto continuarmos a fingir que não os reconhecemos, continuaremos também a fingir surpresa diante das ruínas que são deixadas para trás.
E quanto a nós, europeus, resta-nos aquele papel cómodo de espectadores bem-alimentados, moralistas de sofá, convencidos de que a História acontece sempre noutro lugar. Apontamos o dedo ao Sul global enquanto aceitamos, com um encolher de ombros, a mediocridade dos palhaços a quem chamamos políticos — figuras ocadas, treinadas para o soundbite, especialistas em promessas vazias e submissão elegante. Votamos neles, toleramo-los, repetimos os seus discursos como quem repete o boletim meteorológico, e depois fingimos espanto quando o chão começa a ceder debaixo dos nossos pés.
O que nos espera não é um colapso súbito, mas um desgaste lento: direitos a evaporar, serviços a definhar, medo a ser vendido como prudência. Continuaremos a chamar “estabilidade” à estagnação e “realismo” à cobardia, até ao dia em que perceberemos — tarde — que também nós entrámos na lista dos países sobre os quais outros comentam com falsa preocupação. Porque a História não pede passaporte, e os lobos, esses, nunca tiveram problemas em atravessar as fronteiras.