Crónica de um Mundo em Desatino

Ultimamente, o eco das expressões “direito internacional” e “ordem mundial” tem preenchido os meus dias, soando mais como abstracções do que como realidades tangíveis. Carrego comigo o peso de décadas vividas neste planeta de desencontros, um lugar onde os interesses mais obscuros frequentemente atropelam as verdades mais puras e o direito fundamental das nações.
Assisto agora, com a lucidez que a minha provecta idade me confere, ao desenrolar do drama venezuelano — mais um capítulo na longa antologia de abusos contra a soberania dos povos. A História, essa mestra que poucos ouvem, repete-se. Vi o mesmo guião ser escrito pelas mãos de potências americanas, sérvias e soviéticas; gigantes que, com um apetite voraz, abocanharam vizinhos e destinos sob o pretexto de um direito que nunca possuíram. Naqueles tempos, como agora, o mundo limitava-se a observar, tecendo comentários simplórios de desagrado que morriam no ar, sem nunca se converterem em gestos capazes de travar a injustiça.
É este o mundo que habitamos: um edifício que parece inclinar-se perigosamente para o descalabro e para a derrocada total. Se temo este fim, não é por mim — que já colhi da vida o suficiente para não temer o ocaso, embora ainda aprecie o calor de mais alguns anos. Temo-o pelos meus filhos e netos, herdeiros de um solo que estremece.
Observo as ideologias de uma certa esquerda, que se autoproclama detentora da verdade, mas que se asfixia numa filosofia utópica, atrofiada pelo tempo e desactualizada perante a crueza dos factos. Do outro lado, o espectáculo da força: a incursão para capturar Nicolás Maduro, o rosto de uma presidência forjada na fraude e no exílio forçado de quem, por direito de voto, deveria governar.
Recordo-me de Noriega (Panamá), Kadhafi Líbia), Saddam (Iraque) ou Bin Laden, terrorista que dominou o Afeganistão, e outros mais. O guião é antigo, mas a admiração do mundo parece agora renovada, como se a memória fosse curta. Há, contudo, uma constante matemática nestas invasões: o extermínio dos líderes só ocorre onde a terra tem algo a oferecer. Nunca vi a baioneta estrangeira interessar-se pela miséria; as potências não invadem a fome, apenas a riqueza.
Não sou político. Sou apenas um homem preocupado com a fatalidade daqueles que vivem sob o jugo de tiranos sem escrúpulos. São cancros mundiais, não restritos a este ou àquele continente, que consomem o ar que não merecem respirar. Por isso, não escondo um certo regozijo ao ver o fim do carrasco venezuelano, na esperança — ainda que cautelosa — de que o povo encontre um fôlego de liberdade.
Sou, por natureza e convicção, um homem da paz e da liberdade. No entanto, desde que me conheço, nesta caminhada entre loucos e lunáticos ambiciosos, a plenitude desses dois ideais tem sido a miragem mais persistente deste mundo.