Crescer na escola não se mede em notas

Como Professora do 1º Ciclo do Ensino Básico, acompanho há alguns anos, e diariamente, crianças que estão a dar os seus primeiros passos no mundo da escola. São crianças em crescimento, em descoberta constante, a aprender não apenas a ler, a escrever ou a calcular, mas também a ser alunos, colegas e cidadãos. A aprender a viver, a aprender a conhecer todos os mundos novos à sua volta.

Nos últimos tempos, tenho refletido sobre o lugar que a avaliação ocupa nestas idades. Faz parte do percurso escolar das crianças e da vida de um professor, mas de facto, cada vez mais cedo, as crianças são confrontadas com momentos avaliativos. Ora, as minhas reflexões prendem-se exatamente com o facto destes momentos lhes transmitirem ansiedade, medo de errar e receio de não corresponder às expectativas dos adultos. Bato no peito também aqui, pois sei que poderei influenciar com as minhas expectativas…

É importante lembrar que, no 1.º Ciclo, a avaliação deveria ser sobretudo um instrumento ao serviço da aprendizagem e não um fim em si mesma. O verdadeiro trabalho das crianças faz-se no dia a dia: na persistência, no olhar para o que é novo, na curiosidade das perguntas e no queres perceber, na forma como aprendem a respeitar regras, a ouvir o outro, a cooperar e a assumir responsabilidades, a saber interagir com crianças e adultos e a descobrir coisas novas e diferentes. Ser aluno é, por si só, uma tarefa exigente, que se aprende com o tempo, com erros e com conquistas. Nós que já fomos alunos, bem o sabemos, simplesmente já não nos lembramos…

Tudo se complica quando a escola é associada a pressão e não ao prazer que a escola pode ser.

Muitas vezes, nós, os adultos, com a vontade legítimo de educar, preparar e proteger as crianças, cometemos o erro de olhar demasiado para a frente, preocupados com o ciclo seguinte, com as exigências futuras, com aquilo que as crianças “terão de saber” mais tarde. Só que ao fazê-lo, corremos o risco de desvalorizar o presente que é tão, mas tão importante!

Cada ciclo de ensino tem a sua identidade, os seus objetivos e o seu ritmo próprio. E no 1.º Ciclo, o que realmente importa é consolidar bases sólidas, respeitando o desenvolvimento individual de cada criança, por isso se chamam “as bases”.

Aprender implica errar, experimentar, repetir e, sobretudo, sentir-se seguro. Uma criança que aprende num ambiente sereno, onde o erro é entendido como parte do processo, cresce mais confiante e motivada. Uma criança aprende melhor se se sentir confortável, percebida e respeitada. Pelo contrário, quando a avaliação se sobrepõe à aprendizagem, pode transformar-se num fator de bloqueio, afastando as crianças do gosto pelo saber.

Defendo, por isso, uma Escola que valoriza o percurso e não apenas o resultado; que reconheça o trabalho invisível que acontece todos os dias na sala de aula e que coloque o bem-estar das crianças no centro das decisões educativas. Avaliar é importante, sim, mas avaliar com sentido, com equilíbrio e, acima de tudo, com humanidade e respeito.

Educar no 1.º Ciclo é muito mais do que preparar para o próximo passo — é cuidar do passo que está a ser dado agora. É perceber que cada criança aprende no seu ritmo, que cada um tem o seu tempo e que cada dia é uma nova oportunidade, que todas as conquistas são dignas de serem celebradas, mas sobretudo valorizadas e que o processo de aprendizagem deve ser tão valorizado quanto o produto final. Quando a Escola apenas mede resultados corre o risco de perder de vista a essência da educação: formar pessoas curiosas, seguras de si, capazes de pensar, sentir e criar, pessoas atentas ao próximo, amigas dos amigos e não pequenos seres que estão numa competição para atingir valores.

Precisamos de uma avaliação que informe, que acompanhe, que ajude a orientar o crescimento, que ajude a encontrar a melhor forma de chegar ao sucesso e à felicidade, mas sem se tornar uma pressão que apague a alegria de aprender. Precisamos de uma Escola que observe, que escute e que saiba interpretar cada criança. Precisamos de uma sociedade que reconheça que o verdadeiro sucesso não se resume a notas, mas à capacidade de cada criança se desenvolver com confiança, curiosidade, felicidade e bem-estar.

Felizmente no 1.º Ciclo, educar é antes de mais cuidar, é celebrar cada passo, por mais pequeno que seja, e garantir que cada criança se sente capaz e valorizada no seu percurso único. Esta é a única forma de a Escola cumprir o seu papel mais profundo: formar seres humanos completos, preparados não apenas para o futuro, mas para a vida que está sempre a acontecer.