Contraceção e Interrupção da Gravidez divide profissionais de saúde

A conclusão surgiu no encontro que assinalou os 50 anos do Planeamento Familiar em Portugal, promovido pela Gedeon Richter, onde especialistas analisaram a evolução e os desafios futuros da saúde sexual e reprodutiva no país.
No painel dedicado à evolução do planeamento familiar durante as últimas cinco décadas, representantes do setor associaram o aumento da utilização da contraceção de emergência a uma população mais informada e com maiores níveis de literacia em saúde. Ainda assim, reconheceram a necessidade de reforçar e atualizar o Programa Nacional de Saúde Sexual e Reprodutiva, com lançamento previsto ainda este ano.
Já entre os profissionais de saúde, o aumento destes números é visto com cautela. A chamada “pílula do dia seguinte” não deve ser encarada como método contracetivo de primeira linha, alertam, sublinhando a importância de uma utilização mais informada e responsável.
Para o aumento da literacia, a Associação para o Planeamento da Família defende uma abordagem mais abrangente, envolvendo não só profissionais de saúde, mas também psicólogos, professores e todos os profissionais que contactam com a população em idade fértil.
“A educação sexual desempenha um papel essencial e tem de estar nas escolas”, sublinha Francisco Goiana da Silva, médico e comentador, meses após a proposta de eliminação da educação sexual das Aprendizagens Essenciais da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento.
O futuro do planeamento familiar
O segundo painel do evento, centrado nos desafios futuros do Planeamento Familiar, foi marcado por três temas-chave: literacia, escolha e inovação.
Num contexto em que os jovens recorrem cada vez mais às redes sociais para obter informação, Francisco Goiana da Silva defende a limitação do acesso a estas plataformas até aos 16 anos. Já Vera Silva, médica e vogal da direção da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF), considera que a resposta deve passar pela adaptação da comunicação, através de uma abordagem aberta e apelativa destes temas por parte dos profissionais de saúde.
Outro dos temas em debate foi a eventual venda de contracetivos fora do circuito farmacêutico, por exemplo, em supermercados, sendo que a maioria dos especialistas mostrou reservas, reforçando o papel do aconselhamento clínico.
“Nenhuma mulher começa um método de contraceção sem ter informação do profissional de saúde, ainda que possam comprar na farmácia sem prescrição para dar continuidade ao seu uso”, sublinha Teresa Bombas, presidente da Sociedade Europeia de Contraceção e Saúde Reprodutiva, reforçando o papel dos farmacêuticos na comunidade. Daniel Pereira da Silva, da Academia Gedeon Richter, é da mesma opinião e reforça: “O mais importante é que os métodos sejam acessíveis e bem indicados.”
50 anos do planeamento familiar
O encontro assinalou o caminho percorrido desde a introdução do planeamento familiar em Portugal, recordando figuras como Purificação Araújo e Albino Aroso, determinantes para o acesso a estes cuidados.
Contudo, apesar dos avanços, os especialistas reconhecem que persistem desigualdades no acesso à saúde sexual e reprodutiva.
“Mais do que prescrição, em saúde sexual e reprodutiva, falamos de aconselhamento”, destaca Teresa Bombas, reforçando o papel central dos profissionais de saúde na tomada de decisão informada.
O evento contou, ainda, com a apresentação do livro Meio Século de Educação Sexual e Contracepção em Portugal de Miguel Oliveira da Silva, como um complemento dos temas abordados.
O encontro dedicado aos 50 anos do planeamento familiar contou com a presença de diversas personalidades da área da saúde, entre as quais Miguel Oliveira da Silva, obstetra-ginecologista e autor da obra apresentada, Rita Sá Machado, Diretora-Geral da Saúde, Maria de Belém Roseira, ex-Ministra da Saúde, Maria José Alves, presidente da Associação para o Planeamento da Família, Francisco Goiana da Silva, médico e comentador, Daniel Pereira da Silva, da Academia Gedeon Richter, Vera Silva, da direção da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar, e Teresa Bombas, presidente da Sociedade Europeia de Contraceção e Saúde Reprodutiva.
OC/AJS/DS