Contra a Corrente: A Revolução da Bondade


Foto de RON LACH

Há uma frase que me acompanha neste fecho de ciclo: “A triste verdade é que a maior parte do mal é feita por pessoas que nunca decidiram ser boas ou más.” Hannah Arendt não nos fala de monstros, mas de gente comum, distraída, que deixa a vida correr sem escolher. E talvez seja isso que mais nos deve inquietar: a indiferença, esse silêncio que abre portas ao caos. Porque não escolher é, muitas vezes, escolher pelo pior. E é nesse espaço vazio, onde a decisão não acontece, que o mal se instala, discreto, como aquela teimosa poeira que se acumula nos cantos da nossa casa.

O ano que termina foi um rio apressado, cheio de ruídos e pedras que nos roubaram a paz. Corremos tanto que esquecemos o essencial. Mas, entre as águas turbulentas, houve gestos pequenos que foram como pontes: um abraço dado no momento certo, uma palavra que evitou uma queda, um silêncio que respeitou a dor do outro. A bondade não é um espetáculo; é uma raiz invisível que sustenta a árvore da vida. É discreta, mas poderosa. É como a luz da madrugada, que não faz alarde, mas transforma a noite em dia. E é por isso que, neste instante em que o calendário se renova, precisamos de parar e perguntar: que escolhas fizemos? Que escolhas queremos fazer?

Decidir ser bom é como plantar uma semente num solo árido. É escolher parar quando tudo empurra para a azáfama, a insana correria. É escutar quando todos gritam. É dar quando parece faltar. É acreditar que, mesmo num mundo que tantas vezes parece uma lixeira, ainda há espaço para construir jardins. A bondade não é uma virtude distante, nem um conceito abstrato reservado aos livros, aos romances. É uma prática diária, feita de escolhas simples: não virar o rosto à dor do outro, não fechar a mão quando alguém precisa, não calar quando a injustiça grita. É um caminho que se constrói passo a passo, sem mapas nem garantias, mas com a certeza de que cada gesto conta.

Talvez a maior beleza da bondade seja a sua invisibilidade. Não procura aplausos, não pede reconhecimento. É como a raiz de uma árvore: oculta, mas essencial para que tudo floresça. Quando decidimos ser bons, não mudamos apenas o outro — mudamo-nos a nós mesmos. Tornamo-nos mais humanos, mais inteiros, mais próximos daquilo que realmente importa. E se pensas que a bondade é frágil, fraca, enganas-te. Ela é discreta, sim, mas tem a força da água que, gota a gota, fura a pedra. Num mundo saturado de pressa e egoísmo, ser bom é um ato de coragem. É remar contra a corrente, é dizer: “Eu escolho cuidar, mesmo quando ninguém olha.”

E há quem me chame idealista. Sempre o fui e sempre o serei, porque sonho, porque acredito, porque sou feito de esperanças, de amor e de coragem. É este o meu apelo: que nunca desistamos da bondade. Que a defendamos como quem defende um farol na noite de tempestade. Porque sem ela, tudo se torna escuridão. E eu recuso viver num mundo sem luz.

E quando falamos de bondade, falamos também de amor, de verdade, de humanidade. Porque tudo isto está ligado, como os afluentes que se encontram no mesmo mar. A bondade é o gesto que nasce do amor, é a palavra que se ergue pela verdade, é a escolha que preserva a humanidade em nós. Sem estas forças, seríamos apenas sombras, fantasmas a atravessar dias vazios. Mas, com elas, somos luz, somos ponte, somos esperança. E é essa esperança que nos deve guiar, mesmo quando o caminho parece difícil.

E se há algo que este ano me ensinou, foi que a escrita é também uma forma de bondade. Cada texto que publiquei em 2025, seja nas páginas do jornal O Cidadão, onde tenho a honra de ser jornalista colaborador, seja na Revista Visão, que acolhe generosamente a minha postura e as minhas opiniões, teve um fio condutor: a bondade. Porque escrever é lançar sementes no coração dos outros, é acreditar que as palavras podem abrir caminhos, curar feridas, despertar consciências. E é isso que quero continuar a fazer: escrever para que nunca desistamos da bondade.

Por isso, neste último dia do ano, deixa que esta ideia te acompanhe: não há neutralidade na vida. Cada silêncio, cada gesto, cada palavra é uma escolha. Que a tua escolha seja a bondade — não porque é fácil, mas porque é necessária. E que, ao escolheres, inspires outros a escolher também. Porque o bem, quando se multiplica, tem o poder de mudar tudo.

Que 2026 seja o ano em que, juntos, decidimos ser bons — e que essa decisão transforme tudo.