Contas certas num país torto

O Governo anda todo contente a dizer que as contas estão a melhorar e que, se tudo correr bem, a dívida pública vai cair para 87,8% do PIB em 2026, o valor mais baixo em dezassete anos. Bonito número, bom para mostrar , e ótimo para Bruxelas aplaudir.
Mas depois, há sempre um depois, olhamos à nossa volta e batemos de frente com a realidade: hospitais sem médicos, escolas a cair, rendas impossíveis, jovens a sair do país — e perguntamos: afinal, de que serve ter as contas certas se o país continua de pernas para o ar?

E o mais curioso é que, enquanto se fala em apertar o cinto e cortar na saúde e na educação, segurança social, o Governo prepara-se para gastar 5% do PIB em defesa. Cinco por cento! Mais de 13 mil milhões de euros. É dinheiro que dava para levantar o Serviço Nacional de Saúde do chão, renovar escolas e resolver a habitação de milhares de famílias. Mas não — o dinheiro vai para tanques e aviões.

É legítimo reforçar a defesa, claro, mas afinal o que está a ser defendido ? O povo, ou o prestígio internacional? Porque soberania não é ter mais armas — é ter cidadãos que vivem com dignidade.

Na saúde, a situação é gritante. Hospitais cheios, listas de espera absurdas, profissionais exaustos. Faltam médicos de família, as urgências fecham, e o Governo responde com “cativações” e orçamentos curtos. Quando se pede mais investimento, a resposta é sempre a mesma: “não há dinheiro”. Mas quando se fala em aviões de combate, parece que o cofre se abre sozinho.

Na educação, não é diferente. Faltam professores por todo o lado, há turmas sobrelotadas e escolas com condições que envergonham. Os professores lutam por respeito e estabilidade, mas o Estado prefere tapar o sol com a peneira e fingir que está tudo controlado. E, no fim, a culpa cai sempre em cima dos mesmos.

E depois há a habitação, esse drama diário. Famílias que gastam mais de metade do ordenado na renda, jovens que não conseguem sair de casa dos pais, casais que desistem de ter filhos porque simplesmente não dá.

Mas, em vez de resolver isto, o Governo prefere anunciar metas de dívida e planos militares — como se as pessoas pudessem viver dentro dos gráficos.

O mais revoltante é que, com a subida da extrema-direita, muita gente acreditou que algo ia mudar — que vinha aí uma nova forma de olhar para o país, mais “próxima do povo”.
Mas não. Mudaram os discursos, mais populistas, mas não mudaram as prioridades.
Uns falam em “rigor”, outros em “pátria” e “soberania”, mas no fim fazem o mesmo: cortam no essencial e investem onde dá palco.
Continuamos a ver a mesma peça, só mudaram os atores.

Portugal precisa das contas certas, sim — ninguém quer voltar ao tempo da troika. Mas precisa ainda mais das prioridades certas. Porque o país não se levanta com números bonitos em relatórios; levanta-se com políticas que melhorem a vida das pessoas.
E cada euro investido em saúde, educação ou habitação é um euro que fortalece o país de verdade. Cada euro gasto em armamento é apenas mais um gesto para inglês ver.
O Governo pode achar que está a ser prudente, mas há uma linha muito fina entre a prudência e a cegueira.

As contas podem estar certas, mas se as pessoas continuarem doentes, cansadas e sem esperança, então o país está torto — e nenhum tanque o vai endireitar.

E é aí que bate a raiva — aquela raiva silenciosa de quem trabalha, paga impostos, faz tudo “como deve ser” e vê o país a andar em círculos. Dizem-nos para ter paciência, para acreditar no futuro, mas esse futuro parece sempre adiado, sempre prometido e nunca cumprido. É o discurso das contas certas, das metas, dos gráficos — enquanto a vida real continua a descambar.

E no fim, ficamos nós, os mesmos de sempre, a apertar o cinto para que meia dúzia de senhores de fato e gravata possam sorrir nas conferências de imprensa. Pois bem: as contas podem estar certas, mas o país, esse, está profundamente errado — e não há estatística que disfarce isso