Comunicação Social e Política – Por Carlos Silva

Quer se trate de sistemas totalitários ou de sistemas democráticos, parece inegável a afirmação de uma estreita relação entre a comunicação social e a política. Nos países em que vigoram sistemas totalitários, existe um absoluto controlo sobre os meios de comunicação social e a liberdade de expressão e de imprensa é uma quimera.
O objetivo deste controlo passa pela difusão de um pensamento convergente e único, por forma a formatar as consciências a um dado ponto de vista, tornando-as dóceis e maleáveis. No romance distópico de George Orwell, “1984”, é apresentada uma caricatura das promíscuas relações entre política e comunicação. Orwell sugere que, nos sistemas totalitários, o controlo dos cidadãos passa pelo controlo da linguagem e da comunicação. É neste contexto que é redigido um novo dicionário, a “novilíngua”. Criado pelo governo híper-autoritário, o desenvolvimento deste novo dicionário não tem em mente o enriquecimento do vocabulário, mas sim a “condensação” e a “remoção” de algumas palavras, tendo em vista o condicionamento do pensamento dos cidadãos.
Aquilo que Orwell sugere como ficção, aproxima-se do que alguns pensadores contemporâneos denominam sob a designação de “psicopolítica” para caracterizar a atual sociedade digital. Tal é o caso do sul-coreano Byung-Chul Han, para quem a “psicopolítica” se serve do Big Data – a grande quantidade de dados – funcionando como um Big Brother digital. De acordo com Han, a “psicopolítica” é um sistema sedutor e inteligente, dado que o indivíduo se pensa livre, quando na realidade o sistema explora essa sua aparente liberdade, permitindo, nomeadamente, a previsão dos seus comportamentos.
As sinuosas relações entre comunicação e política não se restringem aos sistemas totalitários. Estendem-se também às democracias. Se nas tiranias, nas oligarquias ou nos totalitarismos o poder político é exercido pela razão da força, nas democracias é a força da razão que determina esse mesmo poder. Existe, inclusive, uma relação embrionária da retórica – a arte de bem falar para convencer – em relação à democracia.
Ontem como hoje, nas democracias o poder é obtido através da palavra usada com o intuito de persuadir. Assim, a Assembleia pode ser percecionada como o palco onde se esgrimem diversos argumentos e diversos pontos de vista sobre um dado assunto.
Contudo, podem verificar-se nas democracias duas tendências quanto ao uso da retórica: a persuasão e a manipulação.
Se a primeira tem por finalidade a elucidação racional de determinado ponto de vista, visando a livre adesão do auditório, na manipulação – ter na mão, literalmente – a ocultação é uma forma de tirar vantagem sobre o outro, que é visto com desdém e encarado como um objeto. Na manipulação não se esgrimem argumentos: impõem-se pontos de vista de um modo unilateral. A manipulação é, pois, a antítese do ideal da democracia.
Daí a importância da independência dos meios de comunicação social em relação aos diversos poderes (económicos, políticos, sociais ou religiosos). Apenas em circunstâncias de total isenção e independência, os meios de comunicação podem proporcionar verdadeiros debates e verdadeiros diálogos. Se num monólogo o juízo coletivo é claramente “formatado” e imposto, num diálogo entre diversas visões e perspetivas é dada ao auditório a possibilidade de ponderar e de formar a sua opinião de um modo refletido e livre.