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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Castração da inteligência : a proibição de ler livros existe entre nós

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Onofre Varela
Onofre Varela
Jornalista/Cartunista
  • Deborah Caldwell-Stone, directora do Gabinete de Liberdade Intelectual da American Library Association, disse que “cada pedido de proibição de um livro é um pedido para negar o direito constitucionalmente protegido de cada pessoa de escolher e ler livros que levantam questões importantes e elevam as vozes daqueles que são frequentemente silenciados“. (Jornal Público, edição de 12 de Abril de 2024, página 26, secção Mundo, rubrica “4 Esquinas” com assinatura do jornalista António Rodrigues).

    Esta notícia trouxe-me à memória um caso Português e fui à procura dele.

    Trata-se de um assunto preocupante que nos remete para a memória do tempo em que, de entre as particularidades radicais da Santa Inquisição se contava a censura literária exercida através do “Index Librorum Prohibitorum”, pela qual a Igreja Católica proibiu a leitura de uma lista de livros e quem os lesse seria perseguido, julgado e, muito provavelmente, morto.

    O nazismo de Hitler fez o mesmo, queimando livros em fogueiras públicas.

    Muito mais recentemente, em 2019, o Conselho Escolar Católico de Providence, no Canadá, repetiu a acção nazi da destruição de livros, queimando Banda Desenhada de Astérix, Tintim, Lucky Luke e Pocahontas, alegadamente por conterem ideologia racista (!?)…

    A primeira das “listas negras” de livros, era religiosa e foi publicada em 1559 pelo papa Paulo IV (teria sido uma das suas últimas acções, pois morreu em 18 de Agosto do mesmo ano), e no decorrer de toda a história da Inquisição a lista foi editada 32 vezes, sendo extinta em 1966 por outro Paulo, o papa Paulo VI.

    Neste nosso tempo tão moderno e no nosso país tão democrático e defensor das mais amplas liberdades, não estamos livres desses censores medievais ainda em acção. Continua a haver listas de livros proibidos elaboradas por homens de fé.

    Recentemente (e tardiamente, relativamente à data de publicação) tive conhecimento de uma, em notícia assinada pelo jornalista Rui Pedro Antunes e publicada na edição do jornal “Diário de Notícias” do dia 28 de Janeiro de 2013: o “index” da seita vaticana Opus Dei (OD), contemplando nas suas “tesouradas” autores como Eça de Queirós, José Saramago e Lídia Jorge, entre muitos outros.

    Embora já tenham passado 11 anos após a divulgação da notícia que refiro, o facto continua actual para quem (como eu) não teve acesso a ela quando foi publicada. À data, este rol de livros proibidos contemplava 33.573 títulos, de entre os quais constavam 79 de autores Portugueses.

    Esta atitude censória só pode ser tomada por quem não dá conta de que “o fruto proibido é o mais apetecido”… o que impedirá o êxito da proibição, provocando a sua crítica como reacção lógica de alguém que tenha um espírito livre e decente, e dele faça uso.

    Autores e especialistas portugueses mostraram-se indignados por a OD proibir a leitura de tais obras. Lídia Jorge disse que a seita em questão deveria ter vergonha de usar tal tipo de listagem que também é arrasada pela Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).

    Pilar del Río, presidente da Fundação Saramago e viúva do escritor, classificou este índice de “grosseiro e repugnante”, deixando várias críticas à OD: “É uma organização a que chamamos seita porque somos educados. Por acaso, eles não são.” Pilar revelou ainda que Saramago nunca escreveu sobre a OD por não lhe atribuir qualquer importância e dignidade, e mostrou-se ainda chocada pelo facto de haver “quem se submeta à irracionalidade das seitas”.

    Lídia Jorge, que tem as suas obras “Costa dos Murmúrios” e “O Dia dos Prodígios”, inscritas na lista, confessou-se “chocada“. Disse que os membros da seita deviam ter “vergonha”, e classificou os autores da listagem de “gente retrógrada e abstrusa“. “São pessoas que desprezo porque se armam em mentores, em guardas morais, quando, no fundo, revelam uma ignorância absoluta sobre o papel da literatura”.

    O presidente da SPA, José Jorge Letria, disse ao DN que “repudia a lista porque é atentatória da liberdade de expressão. Somos contra listas negras, sejam religiosas ou políticas“. Porém, Jorge Letria não se sentiu surpreendido com tal lista por saber que “corresponde à pior tradição das práticas da Igreja Católica, que nos faz lembrar a Inquisição”.

    Quem está na lista e já não se pode defender é Eça de Queirós, com os livros “A Relíquia“, “O Crime do Padre Amaro” e “O Primo Basílio“, que tiveram a honra de subir ao mais elevado nível de proibição. O antigo diretor da Biblioteca Nacional e especialista na obra queirosiana, Carlos Reis, assume a defesa do escritor, considerando que “qualquer lista de livros, ou similar, que contribua para limitar o acesso das pessoas à informação e à cultura é, por princípio, inaceitável“. É um procedimento contrário a princípios fundamentais e “abre caminho a repressões ou, no mínimo, a uma ‘vigilância’ que nenhuma religião ou ideologia tem o direito de impor”.

    Porém, perante a nossa lei, a lista é legal… pois qualquer associação é livre de, internamente, aconselhar a leitura de um livro aos seus associados, ou recomendar a não leitura de qualquer outro, ao contrário do que acontece nos EUA, segundo as palavras de Deborah Caldwell-Stone, que diz estar proibido “negar o direito constitucionalmente protegido de cada pessoa de escolher e ler livros”.

    Entre nós, cabe a cada um dos associados das instituições que impõem a proibição de ler determinados livros, usar o seu critério pessoal em detrimento do critério colectivo imposto pela seita a que se associa… o que, sabe-se, pode ser tarefa impossível… pois quem se habitua à “rédea curta” de uma ideologia ditatorial (seja religiosa ou política), ignora a liberdade… começando pelo uso da sua própria liberdade de pensar e de escolher. Quem se submete a seitas recusa ter vontade própria e não será um digno representante da espécie Homo enquanto Sapiens!

    É esta forma de castração da inteligência, usada pela seita OD, que os extremistas muçulmanos também praticam… mas em versão sangrenta… como fizeram (entre muitos outros casos) no semanário humorístico Charlie Hebdo (em Paris, Janeiro de 2015), provocando 12 mortos e quatro feridos; no ataque ao Teatro Bataclan (em Paris, Novembro de 2015), provocando 130 mortos e 350 feridos; no ataque com faca ao escritor indo-britânico Salman Rushdie (em Nova Iorque, Agosto de 2022) tornando-o cego do olho direito; e há pouquíssimo tempo (22 de Março) em Moscovo no ataque a um teatro que matou 60 pessoas, numa acção terrorista reivindicada pelo auto-denominado Estado Islâmico (embora Putin, usando a sua costela de terrorista e padrinho do assassinato dos seus opositores, pretenda culpar a Ucrânia!…).

    Parece que este mundo é, cada vez mais, um sítio perigoso para se viver… com tantos criminosos e desrespeitadores dos direitos do outro, que por aí andam à solta, invadindo países vizinhos, despejando bombas sobre zonas residenciais, escolas, jardins de infância e hospitais, ou promovendo acções terroristas e lavagens cerebrais (que não são menos terroristas) proibindo a leitura de livros a quem cai dentro de seitas com índole tão distante do Humanismo tão desejado.

    Quando eu for grande quero mudar de mundo… este não me serve…
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