“Casa Louro”, a tasca portuense onde ainda se mantém a tipicidade e a mística da cidade.

As Tascas, ou tabernas como eram chamadas em tempos idos, não fazem parte da minha memória de infância. Aliás, não cresci numa grande urbe como o Porto. As minhas memórias desses estabelecimentos chegam-me dos tempos de faculdade em Lisboa.
Lembro-me perfeitamente das mais pitorescas tascas do Bairro Alto, da Calçada do Combro, de Santos e até da rua de S. Bento. Não porque as frequentasse, mas por que quase diariamente passava às portas de várias e, era inevitável o odor a vinho e o burburinho das vozes masculinas nas suas conversas altas. Ficaram as memórias que hoje me levam a observar com um certo fascínio a existência no Porto de estabelecimentos semelhantes.

Observar estas Tascas genuínas, onde ainda se guarda a memória de uma cultura popular bairrista é descobrir um tempo renovado da tipicidade da cidade feita de encontros em volta de um balcão, de um copo ou de um petisco. Participar de uma experiência autêntica e de um ambiente único. Hoje acessível a todos. Sim, porque no início do séc. XX, as tascas eram redutos masculinos. Durante muito tempo, as crianças e as mulheres honestas não podiam lá entrar. Eram sítios onde se falava abertamente sobre assuntos tais como a política, os amores, os problemas sociais, as questões de honra ou de dinheiro. Porém, eram conversas masculinas. Quem as frequentava eram, sobretudo, os homens do povo, os proletários, os homens das fábricas e dos barcos, os cauteleiros e jornaleiros, entre outros dos ofícios mais diversos, todos com um mesmo objetivo: conviver, comunicar, degustar e beber conforme os gostos, hábitos e capacidades financeiras.
As tascas do Porto têm uma significativa importância na cultura e na vida social da cidade! São muito mais do que simples lugares para comer e beber; são verdadeiros pontos de encontro onde as pessoas se reúnem para conversar, celebrar e criar memórias. As tascas representam a alma do Porto, refletindo a hospitalidade, a tradição e o espírito convivial da cidade. Infelizmente, são é cada vez menos!
De acordo com um levantamento feito pelo historiador Hélder Pacheco em 1924 havia o registo de 1862 estabelecimentos de venda de vinho, mas já no período de 2001/7 apenas estavam registados 89. Atualmente, não tenho números, mas são certamente bem menos. E a sua raridade, torna cada Tasca portuense ainda mais especial.
Em busca destes espaços típicos de convívio, que habitam o imaginário citadino, fui até à Batalha para, logo no início da Rua Cimo de Vila, encontrar uma das tascas resistentes e famosas: a Casa Louro.

A casa Louro tem uma história impressionante. Com quase um século de existência, tem resistido ao tempo, mantendo-se como um ponto de referência no coração da cidade do Porto. A sua trajetória é marcada por resiliência e perseverança, tornando-se um símbolo vivo da cultura da Cidade. Com uma forte tradição no fumeiro e no presunto de Lamego, famosos pela sua qualidade e sabor, conquistou o coração e o estômago de várias gerações, oferecendo um ambiente familiar e acolhedor, onde se contam histórias à cadência de quem bebe um copo de bom vinho e se delicia com uns bons pasteis de bacalhau.
As tascas até hoje continuam a ter o seu caráter especial não só como lugar onde se pode comer e beber, mas também reunir e encontrar os amigos. A vizinhança dos bairros e fiéis clientes cria o ambiente próprio destes pequenos espaços. Por esta razão, a tasca é mais que um lugar para encher o estômago, é um lugar de reunião e convivência social.
Com os novos tempos e todas as transformações sociais, já não há neste estabelecimento, os traços das habituais tascas ou tabernas do início do século XX, não apresenta as portas batentes em madeira, nem os ramos de loureiro à porta, ou as pipas empilhadas. Aliás, esta casa foi renovada há uns anos e apresenta-se “de cara lavada”, muito mais atrativa e mantendo vivas as memórias que lhe deram origem, homenageiam os homens que lhe deram alma nos quadros com as fotografias do fundador e seu sucessor. A alma está mesmo no ambiente que se vive no seu interior, aquele que os clientes mantêm na sua fidelidade a uma certa forma de estar genuína que vai cada vez mais escasseando.

Paulo Nogueira, filho de António Nogueira, faz-nos um breve resumo da história desta casa: “António Alves de Sousa foi o fundador, mas todos o conheciam como Sr. Louro daí a casa ter o nome da sua “alcunha”. O meu pai, o António Nogueira, em 1967, com 14 anos, veio para o Porto e começou a trabalhar aqui como empregado do Sr. Louro. Entretanto o Sr. Louro faleceu em 1978 e os filhos venderam a casa ao meu pai em 1979. Desde essa altura e até ao seu falecimento em 2022, esta foi a casa do meu pai. Agora é minha.” Sente-se um misto de nostalgia e orgulho nas palavras de Paulo Nogueira.

A Casa tem 94 anos. “Sempre foi conhecida pelo presunto e pelo salpicão. O meu pai ainda servia almoços numa sala no andar de cima. Eu apostei aqui no espaço em baixo. Fui introduzindo outros petiscos, como as bifanas e os bolinhos de bacalhau,” conta António Nogueira.

A decoração à Porto, a mística do Porto é da responsabilidade de Paulo, é a sua marca nesta casa e por isso é com muito orgulho que nos mostra “pedaços importantes da história do FCP” espalhados pelas paredes. Descobri um poster com a equipa do ano em que nasci o que me deixou bastante satisfeita.
As paredes contam outra história. Sobre os azulejos beges emerge o azul e branco do FCP sob a forma de posters, fotografias, cachecóis. Um verdadeiro santuário da mística do Porto. Tudo tratado com o respeito e entusiasmo dedicados a relíquias familiares e a vitórias que reforçam a importância da união da comunidade com o clube.

No interior das tascas há sempre algo que surpreende. Na Casa Louro, para além da mística clubística há ainda sobre o balcão uma autêntica montra de bom fumeiro: vários presuntos pendurados entre salpicões e ramos de louro, a fazer jus ao nome desta tasca. O balcão destaca-se como lugar de encontro. Na realidade são dois balcões, onde os clientes habituais se encostam. Ao fundo há um número reduzido de mesas de madeira, onde se sentam lado a lado, portuenses e turistas vindos de todas as partes do mundo.
Uns discutem as notícias do dia, ou encetam conversas informais sobre a proveniência dos estrangeiros. Estes últimos, não escondem as emoções tirando fotografias a todos os cantos da casa, como se tivessem entrado num outro mundo. E, mesmo sem saberem, devem apreciar e guardar os momentos e este convívio tão genuíno para memória futura, pois, é dos poucos tesouros que ainda guardam a alma de um outro Porto quase desaparecido.
Paulo vê o turismo com bons olhos — afinal, é dele que depende. Se não fosse pelos turistas, já teria fechado as portas. Sem eles, o negócio não sobreviveria. “Hoje, mais de 70% dos meus clientes são turistas. A maioria vem até cá com guias. Do tempo do meu pai, aqueles clientes antigos e que ainda aqui vêm diariamente são pouco mais de uma dezena.” Paulo destaca que “os turistas adoram esta casa, ela tem uma decoração muito bonita, tem o atrativo acrescido do clubismo portista e claro, tem produtos com muita qualidade. Eles adoram as nossas sandes de presunto e o vinho verde de Celorico.”

É um lugar típico e autêntico, sem dúvida! Cada vez com menos gente local. Como nos confidencia Paulo, “os clientes do tempo do pai, hoje têm muito menos poder de compra, são reformados e vêm aqui “beber um copito” e conversar. Vêm encontrar-se com os amigos. Ainda conversámos com dois deles enquanto degustavam uma sande de presunto acompanhada de vinho de Baião, estavam a falar do FCP. Discutiam a vitória do seu clube — e o ânimo não deixa dúvidas: o fim-de-semana correu bem ao FC Porto“.
“Hoje foi um bom dia para vir aqui” disseram de sorriso aberto. Habitualmente vêm falar sobre a equipa, os resultados que nesta época não foram os melhores. Uma época atípica. Também houve dias em que as discussões foram acesas, por altura das eleições…, mas os jogos, esses são vistos no Dragão. Paulo Nogueira, sócio do FCP há 48 anos, remata: “sempre que há jogos do Porto fecho a casa. Se o jogo for aqui, vou lá baixo ao Dragão se o Porto jogar fora, fico em casa sossegado a ver o jogo.”
Estes clientes habituais já não vivem por aqui, não são vizinhos de Paulo. São pessoas que vivem em Ermesinde, em Gaia, em Matosinhos. Mas vêm aqui diariamente. E este retrato ilustra bem a visão certeira de Hélder Pacheco quando afirma: “As tabernas vão acabando emparedadas, violentadas, destruídas, para darem lugar a prédios. Sobram meia dúzia de resistentes e uns poucos que se modernizaram para alimentar a nostalgia da classe média e saciar a curiosidade turística pela tradição e pelo exótico”, resume o autor do livro Adegas, Tabernas e Casas de Pasto – Os bons velhos lugares do convívio do Povo (Edições Afrontamento).

Não são só as tascas e os estabelecimentos tradicionais que vão desaparecendo do coração da cidade, são também as pessoas. O turismo é efetivamente importante em termos comerciais, porém, tem de se encontrar algum equilíbrio. E os comerciantes que como Paulo, se sabem adaptar aos novos dias e mercados, sobrevivem e devem ser acarinhados, pois, são guardiões de uma vivência local que tem de ser conservada, como um reflexo da alma popular portuguesa.
A Casa Louro faz parte da rede do Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto (GAATP), e também da Confraria da Aguardente. Possui também o diploma das Casas de Tradição. Faz igualmente parte do roteiro do “rally das Tascas do Porto”.
A Casa Louro, por enquanto, parece escapar ao negócio imobiliário cego. Paulo Nogueira, é arrendatário do espaço, mas confessa-nos que “os donos do prédio, dois sócios, têm muito respeito pelo seu pai e são amigos da casa. Aliás, foi o pai que lhes arranjou o negócio, e por isso, Paulo considera-se protegido por agora.”

Que os ramos de louro continuem a bafejar-lhe a sorte e a afastar “o mau olhado” para que a Casa Louro se mantenha firme e viva, como uma das instituições tripeiras. Ou como Paulo Nogueira teima “nesta casa mantém-se a tipicidade e a mística da cidade”.
Cada conversa animada no balcão, cada momento de convívio e cada objeto nas paredes conta um pouco da nossa história coletiva, numa crónica viva de cultura e amizade. Que assim se mantenha por muitos anos. Um brinde à sua longevidade.
Texto | Maria João Coelho
Fotos | Vitor Lima