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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Cartoons e podcasts: fazer uso da liberdade de expressão. Mas sem abusos… – Por Abílio Ribeiro

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Abílio Ribeiro
Abílio Ribeiro
Jornalista

Praticamente desde o primeiro momento que o autor de “Um Cidadão Como Nós”, (quer na versão de cartoons diários, quer na versão de podcasts – estes com publicação mais dilatada no tempo) colabora com O CIDADÃO. Aparece sempre identificado nos trabalhos que realiza e produz, é jornalista há mais de duas décadas e dá a cara pelo manifesto. Em momento algum lhe foi imposto qualquer condicionamento face ao que deveria (ou não) publicar. E, se assim não fosse, hoje não estaria aqui…

Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948: consignação da “liberdade de expressão enquanto direito humano”. Sendo uma das bases da democracia, naturalmente que, no caso português, este direito garantido só chegaria após o 25 de Abril de 1974 (parece que foi ontem). E não foi algo imediato, diga-se de passagem. Eu não estava cá, mas os meus pais asseguram que, para irem os dois ao baile da aldeia, tinham de responder a um inquérito exaustivo, dar provas de amor e jurar que não mudariam de par no decurso da festa.

Qual a pretensão desta contextualização? Nenhuma. Pelo menos para nós, cidadãos habituados a lidar com aquilo a que apelidamos de democracia (nunca é demais frisar esta palavra). E que, até aqui chegarmos, nos custou uns valentes atos violentos de tortura psicológica e física. Tarrafal, “holandinha” (antecedida pela célebre “frigideira”), “estátua”. No fundo, prender primeiro e perguntar depois, com recurso a métodos instrumentais que visavam a morte lenta.

O cartoon, assente numa vertente assumidamente satírica, não deixa de ser um género jornalístico. Não por acaso, aliás, nomes como Cristina Sampaio e António Antunes figuraram entre os nomeados para o prémio de Melhor Cartoon Editorial Europeu. Cartoons que, sublinhe-se, foram publicados em órgãos de comunicação social. Estamos a falar de meios como o Público e o Expresso. Com registo na ERC. E cujos autores dão a cara ao manifesto… World Press Cartoon, Prémio Stuart de desenho de imprensa, European Cartoon Award, Porto Cartoon World Festival. Apenas para citar alguns exemplos. Todos eles publicados em órgãos de comunicação social.

Vem isto a propósito de um leitor atento que, após ter dedicado o seu tempo ao conteúdo do podcast #3 de “Um Cidadão Como Nós”, comentou no Facebook: “se O CIDADÃO for mais um que aparece para “brincar” com o CHEGA, o mais provável é ir pelo mesmo caminho dos outros. Mais não digo.”

Li isto. E tremi. Não por se tratar de um acérrimo defensor do CHEGA (basta ler o que escreveu, sob a sua própria responsabilidade – e liberdade, já agora), mas, antes, porque o comentário foi enunciado por um leitor com o distintivo de “maior fã” de “O CIDADÃO”. Não obstante a resposta (muito bem dada) do editor e da sequente refutação por parte do “maior fã” (igualmente muito bem escrita, num tom mais apaziguador e que até confessou contar “connosco”), pensei:

– Onde estava este “maior fã” quando foram publicados os sucessivos cartoons sobre António Costa, João Galamba, Duarte Cordeiro, Marcelo Rebelo de Sousa, PSD (eleições na Madeira, por exemplo), críticas à carga fiscal e, entre tantos outros temas, problemáticas como o caos no SNS e a desconsideração em relação à carreira dos docentes?

– Onde estava este “maior fã” quando a primeira edição em versão áudio (e vamos apenas em 3) foi dedicada a João Galamba, com a pérola de se ter, inclusive, “desenterrado” soundbites de José Sócrates?

– Onde estava este “maior fã” quando, em vez de encetar por um tom intimidatório (basta ler o primeiro comentário que escreveu e que se encontra registado), deveria reconhecer que, no fim de contas, O CIDADÃO (ou, em última instância, o autor dos cartoons e dos podcasts) assume uma postura pluralista (ao ponto considerar o CHEGA como assunto de sobeja importância)?

– Onde estão as observações deste “maior fã” no campo dos comentários de outros órgãos de comunicação social que, ao contrário de O CIDADÃO, não dão tempo de antena ao CHEGA (ou, em contrapartida, demonstram “inclinação para a jocosidade” dos seus eleitores)?

Como referido pelo editor de O CIDADÃO, cada trabalho aqui publicado é da responsabilidade dos respetivos autores. Mas sem esquecer um pressuposto importante: este não é um jornal a somar a tantos outros. A diferenciação deste órgão de comunicação social está bem patente no seu estatuto editorial. E, imagine-se, todos são convidados a colaborar. Porta aberta à opinião de quem pretender veicular o seu ponto de vista. Inclusive aos maiores fãs.

Ao contrário de determinados partidos políticos, onde a não concordância com elementos de estruturas concelhias (por exemplo) implica a desvinculação imediata, sem sequer haver lugar ao princípio do contraditório. Sei do que falo, tenho amigos que sabem do que falo, o “maior fã” poderá (eventualmente) ter ainda maior conhecimento do que estamos a falar (mas é um assunto sobre o qual nem todos querem que se fale – ou terão liberdade para tal).

Que nunca percamos o bom senso e, acima de tudo, o sentido de humor. Mas, para isso, necessitamos de discernimento que nos permita não só distinguir um cartoon de um artigo científico, assim como compreender verdadeiramente o papel (e a importância) que cada um deles ocupa no nosso espaço e tempo. É o sorriso que faz mover o mundo, não a crispação. É como as guerras: elas terminam por via da paz, não das bombas.



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