Carne para Canhão

É incrível a leveza com que nos vendem a narrativa de um país a nadar em bonança
financeira, quando a realidade da legislação laboral que está a ser cozinhada prepara o
caminho para uma crise que eles sabem ser inevitável.

Ora bem, se confrontarmos os discursos oficiais com as novas medidas que facilitam
os despedimentos e que precarizam o trabalho vamos realizar que o Governo sabe algo
terrível sobre o futuro próximo. Algo que escolheu não partilhar com quem vota e com
quem paga impostos.

Digo isto, meus caros e minhas caras, porque ninguém reforça as fundações de um
bunker se estiver à espera de dias de sossego. Ninguém cria mecanismos para despedir
rapidamente e de forma barata, se verdadeiramente acreditam na robustez da
economia que é apregoada nas televisões.

O que há, parece-me ser uma maldade intrínseca na forma como estas alterações ao
banco de horas e às licenças parentais estão a ser desenhadas. Não para a proteção
das famílias ou para o descanso, mas para espremer o trabalhador até à última gota de
produtividade, transformando-o numa variável descartável de ajuste contabilístico, algo
que pode ser esticado até à exaustão.

O que leio nas entrelinhas destes novos contratos menos rígidos não é uma
modernização necessária para a economia. É a construção de um colete de salvação
exclusivo para as elites empresariais que precisam de garantir que, quando a bolha
rebentar, poderão atirar a carga humana ao mar com o menor custo possível, para
salvarem os seus próprios balancetes.
E confesso que esta indignação ganha em mim um travo a fel, precisamente porque fui
um dos que, acreditando, deu o corpo e a voz pelo apoio público a quem agora nos trai.
Revolta-me, portanto, a covardia moral de um Estado que legisla a desvalorização
salarial dos jovens sob a capa cínica da empregabilidade, dizendo a uma geração inteira
que o seu valor de mercado é residual. Que devem aceitar ser carne para canhão de uma economia que se recusa a pagar o justo valor pelo seu talento.

Não precisamos de ser analistas para perceber o cheiro a medo que verte destas leis,
porque a história ensina-nos que quando os poderosos começam a blindar as suas
saídas e a facilitar a limpeza de pessoal é porque o inverno já não é uma hipótese. É
certeza matemática!

A dúvida que me fica, e que deixo convosco, não é sobre a estratégia, que é
cristalinamente clara, mas sobre a nossa própria reação, pois se o contrato de proteção
foi rasgado de forma unilateral, cabe-nos decidir se vamos assistir de forma passiva ao
nosso próprio fim ou se começamos já hoje a construir as redes de apoio que o Estado
decidiu abandonar.

Sinto que este será um imenso desafio de sobrevivência comunitária, que não se vai
esgotar neste meu desabafo, ao qual, inevitavelmente, terei de voltar muito em breve.
Até já.