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Quinta-feira, Maio 23, 2024

Tantas cantigas encarceradas

A senha para o 25 de abril?... uma cantiga!

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Com a transmissão de “E Depois do Adeus” pelos Emissores Associados de Lisboa, às 22 horas e 55 minutos, do dia 24 de Abril de 1974, era dada a ordem para as tropas se prepararem e estarem a postos. O efetivo sinal de saída dos quartéis, posterior a este, seria a emissão, pela Rádio Renascença, de “Grândola, Vila Morena“, de Zeca Afonso.

“E Depois do Adeus” é uma canção com letra de José Niza e música de José Calvário, que foi escrita para ser interpretada por Paulo de Carvalho na 12ª. edição do Festival RTP da Canção, do qual sairia vencedora. A razão da escolha de “E Depois do Adeus” é óbvia: não tendo conteúdo político e sendo uma música em voga na altura, não levantaria suspeitas, podendo mais facilmente a revolução ser cancelada, se os líderes do MFA concluíssem que não havia condições efetivas para a sua realização.

“Grândola, Vila Morena”, José Afonso

A música de José Afonso já está tão digerida pela nossa memória coletiva que, quando ouvimos um disco dele, ouvimos o que temos na memória e não o que está gravado. Há poucas canções onde isto seja tão óbvio como em “Grândola, Vila Morena”. Quase toda a gente acha que a consegue cantar, mas poucos sabem a letra de uma ponta à outra; teve direção musical de José Mário Branco.

“Trova do Vento Que Passa”, Adriano Correia de Oliveira

Magnífica balada composta por António Portugal, a partir de um poema de Manuel Alegre. Ao longo dos anos, esta crítica discreta à ditadura salazarista, ao mesmo tempo pesarosa e carregada de esperança, foi gravada por muita gente, do Quarteto 1111 a Amália Rodrigues. Mas a versão definitiva será sempre esta, cantada por Adriano Correia de Oliveira em 1963.

“Queixa das Almas Jovens Censuradas”, José Mário Branco

José Mário Branco ergueu uma grande canção sobre este poema de Natália Correia a que emprestou a voz e o génio. Uma denúncia, tão lúcida como desiludida, do conformismo e mediocridade promovido pela ditadura e um dos pontos altos do seu álbum de estreia de 1971, o magistral Mudam-se Os Tempos, Mudam-se as Vontades.

“O Povo Unido Jamais Será Vencido”, Luís Cília

Escrita por Sérgio Ortega Alvarado e os Quilapayún antes do golpe de estado fascista que depôs Salvador Allende, em 1973, “El Pueblo Unido Jamás Será Vencido” tornou-se um dos hinos da resistência chilena e da esquerda internacional. Em 1974 a banda chilena, na altura exilada em França, acompanhou Luís Cília, que também vivera em França durante a ditadura salazarista, nesta versão portuguesa da canção.

“O Patrão e Nós”, Fausto Bordalo Dias

O segundo álbum de Fausto Bordalo Dias, P’ró Que Der e Vier, é maravilhoso. Um disco combativo e politicamente empenhado, gravado em 1974 e sem medo de chamar os bois pelos nomes. Poucas canções são tão diretas como “O Patrão e Nós”, com versos duros e honestos como: “Tem um banco e muitas fábricas/ Tem nome de patrão/ Mas agarra que é ladrão/ Não faz falta e é cabrão”.

“Somos Livres”, Ermelinda Duarte

Na ressaca do 25 de Abril, José Cid fez os arranjos e a atriz Ermelinda Duarte interpretou esta cantiga na peça Lisboa 72-74 do Teatro Estúdio de Lisboa. Depois de a ouvir, Mário Martins, da editora Valentim de Carvalho, convidou-a, para a editar em disco, e José Cid produziu o single. A canção acabou por se tornar numa das mais icónicas dos anos que seguiram à revolução.

“Letra Para Um Hino”, Francisco Fanhais

Gravado em Roma, em 1975, o disco República não foi editado em Portugal. E é uma pena. José Afonso e Francisco Fanhais participaram neste registo de solidariedade para com o jornal República, com inéditos, versões de outros artistas e do seu próprio repertório. “Letra Para Um Hino”, foi escrita por Manuel Alegre antes da revolução de Abril.

“Companheiro Vasco”, Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo

Força, força, companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”, prometiam Maria do Amparo e Carlos Alberto Moniz no lado B do single “Daqui o Povo Não Arranca Pé!”, de 1975. Um hino revolucionário pueril e ultimamente inconsequente, mas inspirador. Que vale sobretudo pela exaltação do militar de Abril e primeiro-ministro responsável por medidas como a reforma agrária e as nacionalizações dos principais
sectores económicos.

“O Pecado (do) Capital”, Jorge Palma & Fernando Girão

O festival da canção de 1975 realizou-se em pleno PREC. E isso nota-se. Paco Bandeira cantou “Batalha-Povo”, José Mário Branco deu voz ao “Alerta!” do Grupo de Ação Cultural, o vencedor foi um militar de Abril, Duarte Mendes. E o concurso começou com Fernando Girão e Jorge Palma a cantarem sobre “O Pecado (do) Capital”.

“A Cantiga É Uma Arma”, Grupo de Ação Cultural 

O Grupo de Ação Cultural, ou apenas GAC, foi o melhor e mais consequente dos coletivos de cantores e músicos politicamente engajados que se formaram no pós-25 de Abril. Algumas das principais vozes da revolução estiveram envolvidas (e mais ou cedo ou mais tarde abandonaram) o projeto. “A Cantiga É Uma Arma”, incluída no LP
homónimo de 1975, foi e é um dos seus maiores hinos.

“Cantiga de uma Greve de Verão”, Vitorino

Retirada de Semear Salsa Ao Reguinho, o álbum de estreia de Vitorino Salomé, editado em 1975 pela Orfeu, esta balada revolucionária pega num título de Shakespeare e adapta-o ao contexto da reforma agrária. As letras são simples, diretas e inspiradoras (“abro o peito, fecho o punho”; “troco foice por espingarda”; “caçadeira atrás da porta”; “queremos um Verão quente”).

“Liberdade”, Sérgio Godinho

“‘Liberdade’ é de todas as palavras e conceitos que uso na minha vida, e por arrasto nas canções, a que mais acarinho e que mais defendo, aquela que dá “ao norte a sua bússola”, escrevia há uns anos Sérgio Godinho, num texto publicado na Time Out Lisboa.

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