Bules comigo à paisana – Por Nuno Moura Brás

Era mais um dia, sem prenúncio de novidades, muito menos de extraordinário.
Saído da cama, banho tomado, vestida a roupa, saída para o café.
mais um dia, no dia-a-dia que mantinha a rotina do tempo que escorria.
O elevador cumpria, rotineiramente, a função: botão calcado pelo indicador; o sinal verde indicava que a máquina de transporte vinha a caminho.
Como de costume, as portas abriam se, entrava, carregava no rc, para a saída do prédio.
Saía à rua, como sempre.
Verdade que, chegado ao passeio a atrapalhação, a dificuldade crescia: ora o pavimento irregular, os carros no passeio a atrapalhar, o trânsito sem vagar.
JA vivia reduzido na condição de sentado numa cadeira de rodas.
A condição tinha origem num acidente, num incidente. coluna ferida, cintura e pernas inúteis, eis a nova condição de um homem que agora não alcançava a torneira, os olhares, os sons que poucos meses antes, ouvia e vivia em segundo plano.
As pessoas, umas gentis outras não, saudavam – ora com ar de quem cumpre um ritual, ora com ar compungido, como quem saúda um coitado.
JA respondi a. Saudava, correspondia – por vezes com sorriso amplo, vezes demais com um som, pouco mais do que um grunhido.
Um esforço diário, arrastava o para o café.
Um café e vários cigarros. A plenitude, por deus, por momentos.
Sentado, o som primeiro eram os dos pagamentos e dos trocos pousados nas mesas. Esses eram os sons em primeiro plano: depois os barulhos dos caminhares, dos tacões, dos andares. Por fim, lá longe, as vozes: o que vai ser hoje? café, copo de água?
JA confirmava: café e copo de água. E um cinzeiro, se faz favor.
Assim era, como tinha sido nos últimos tempos.
Antes dos últimos meses, digamos então os penúltimos, se assim se pode dizer, se isso existe…
Nesses “penúltimos” tempos, assentemos que a expressão vale, JA entrava, pedia o café , o cinzeiro. agradecia sempre o cinzeiro e desejava a continuação de um bom dia.
Depois, agora já, sentado. Antes na cadeira, arrastando a para ganhar espaço, cruzando a perna, refastelado, torso e braços atirados para trás- Agora, com as mãos ajustando as pernas inertes, encaixando as por entre o tampo da mesa.
Os prédios, as ruas, as pessoas ocupam dois metros e meio do olhar, do horizonte curto de quem se move todos os dias.
Sentado sistematicamente, o primeiro plano da vista, alcança algo como das coxas até ao peito.
JA olhava, lenta e prolongadamente: o copo de três, sonoramente aviado. A sopa, envergonhadamente pedida e paga por senhoras modestas e envergonhadamente.
Fisgou lhe o olhar e atenção, uma rapariga , sempre ao telemóvel , sempre com um livro entre dedos.
JA fumava, apreciava o ar contemplativo, cabelos negros, quase engrenhados. Para ser franco, com o olhar percorria-lhe as formas, arredondas, sugestivas.
A cena repetia se, nunca fartava.
Por vezes efabulava: agora levantava se ia ter com ela, sorria, discretamente e sussurrava : tu bules comigo à paisana. Depois a imaginação voava, livre, libidinosa.
Dava se conta do real, o cigarro no fim a pedir o cinzeiro .
Assim feito, saía, suplemento de cadeira feito.
Por alguma razão sorria. pensava nos bules comigo à paisana. Havia tempo que não andava à gandaia.