Breve História do Jazz (1ª Parte) – Por António Ferro

O Jazz marcou definitivamente, não só a arte do século XX, mas acima de tudo o pensamento social de toda uma geração espalhada pelos quatro cantos do mundo.

A proliferação de concertos, festivais, discos e programas mediáticos, deu notoriedade à música que melhor espelha a liberdade do ser humano, visível na forma como trabalha a improvisação, a rítmica (swing) e a interligação humana entre sentimentos adquiridos.

New Orleans e Dixieland

O termo “jazzband”, caracteriza o tipo de bandas de negros, criadas entre 1900 e 1915 que interpretam vários estilos, como: ragtime, valsas, quadrilhas e blues. Estas bandas, também conhecidas por “Street Bands”, combinavam instrumentos transportáveis, violino, clarinete, corneta, trombone e guitarra, com instrumentos que exigiam um lugar mais fixo, como o contrabaixo e a bateria. A tuba e o banjo, só apareceram a partir de 1918. Estes grupos actuavam em bares, funerais, pic-nics, nos vagões dos comboios e nas aberturas de significativos acontecimentos desportivos.

Ainda não se usava a palavra jazz, este estilo era conhecido como, “Playing Hot”. Um estilo que usava as “Blue Notes”, sétimas e terceiras menores com acordes maiores, os sons primitivos importados do continente africano (gritos e sons guturais), e a transformação das melodias, combinava com as alterações rítmicas dos dois tempos (2/4) das marchas e rags, para a nova batida nos quatro tempos do compasso (4/4). O Jazz nasce da combinação dos blues, dos rags e de canções populares, com a alteração do ritmo binário para o quaternário e com a colcheia acentuada a perfazer os oito tempos em colcheia de um compasso quaternário.

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Buddy Bolden é sem dúvida o primeiro grande nome a combinar blues e rags com esta nova forma de tocar (hot) e numa característica rítmica de tocar na acentuação do tempo fraco que mais tarde assumiria o nome de swing.

Entre 1880 e 1890, nasceram os primeiros nomes do jazz, Armstrong, Bechet, Dods, Kid Ory e King Oliver, enquanto Buddy Petit, Frankie Dusen e Benny Williams, apenas ficaram em testemunhos orais ou escritos, pois nunca tiveram oportunidade de gravar. Toda esta manifestação artística influenciou músicos brancos, o que a partir de 1910 levou Vick LaRocca, Larry Shields, Leon Roppolo, Papa Jack Line e os irmãos Brunies a optarem pela imergente causa negra.

Quem também contribuiu para uma maior esquematização deste estilo, foi o nosso conterrâneo, John Philip de Sousa, ao realçar na escrita o que na prática vinha a ser uma forma de tocar, com a melodia principal para a corneta, a contra-melodia para o clarinete e o suporte harmónico para o trombone, criando com estes encadeamentos melódicos, um novo estilo polifónico.

Depois da I Guerra Mundial, a América teve uma nova forma de viver, “The Jazz Age”. O cinema com a Broadway; os “Dance Halls”, os “Tin Pan Alley” e as “Jazz Band”, coloriram os costumes da época. A cultura negra valorizou-se e o jazz passou a ser um símbolo de contestação, com uma forte influência na lei seca que afectou a sociedade americana em geral. “The Original Creole Band”, de Bill Johnson, foi um dos primeiros grupos a sair de New Orleans e a levar a nova música a outras paragens. Jelly Roll Morton escolheu a Califórnia, King Oliver, Chicago e Kid Ory, Los Angeles, contribuindo assim para uma expansão maior desta nova cultura.

O impacto dos músicos brancos de New Orleans, Tom Brown e Johnny Stein em Chicago, abriram as portas ao sucesso da “Original Dixieland Jazz Band”, de Nick LaRocca, a primeira a gravar o primeiro disco de jazz, em Fevereiro de 1917, para a editora Victor. Os negros esperaram 5 anos para ouvirem fonograficamente, “Sunshine”, pelos Ory’s. Os músicos procuravam cidades do norte, particularmente Chicago, onde podiam trabalhar e escutar King Oliver no Lincoln Garden; Jimmie Noone e Earl Hines no Next e no Apex e Armstrong no Bunset e no Savoy. Todos estes clubes e dance halls atraíam uma clientela negra, com uma forte componente branca nos finais de semana. Beiberdecke, Goodman, Freeman e Kruppa, eram clientes assíduos.

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Louis Armstrong, o “Pelé do Jazz”, chegou a Chicago pela mão de King Oliver e tocou alguns anos na “Creole Jazz Band”, mas Fletcher Henderson, vendo a sua virtuosidade, cedo o chamou para a sua orquestra. A forma de improvisar de Armstrong e o seu scat vocal (forma de improvisar sem palavras), fez dele o expoente máximo do jazz. O chamado “Chicago Style”, com forte responsabilidade de Bix Beiderbecke, e que influenciou músicos brancos e negros, não deixa de ser uma variação do estilo de New Orleans.

Um dos estilos da época versando o piano solo, “Stride Piano”, consistia nas figuras rápidas com a mão direita, ao estilo ragtime, e num acompanhamento de baixos oitavados e acordes na mão esquerda. Earl Hines e Teddy Wilson, foram admiráveis músicos deste estilo.

O Be-Bop dos anos 40

Na altura em que o disco de 33 rotações, mais conhecido por LP, era a mais avançada forma fonográfica e que o meu amigo Manuel de Campo de Ourique me assediava para o jazz, veio-me calhar às mãos um disco a preto e branco, de um quinteto curioso:
Charlie Parker no saxofone alto, Dizzy Gillespie na trompete, Bud Powell no piano, Charlie Mingus no contrabaixo e Max Roach na bateria. Mal sabia eu que esse disco é uma das referências deste género musical que veio a chamar a atenção para o novo jazz, longe das grandes orquestras e confinado a quartetos e quintetos de apurado recorte técnico e inventivo.

Com a população negra do norte a aumentar por volta dos anos 30, cresceu um movimento político de esquerda, mais conhecido pela democracia negra, que se afastou da classe branca, do show-business e de alguma forma das big-bands e dos salões de baile.

Este movimento achava Fats Waller, Cab Calloway e Louis Armstrong, demasiados vendidos ao sistema e uma postura de “entertainer” que pouco se adequava com a nova postura política e social. A inteligência de Gillespie, com Harry James e Roy Eldrige como principais influências, levou-o a ser, um teórico da nova música, enquanto Parker, um devoto da sonoridade e sobriedade de Lester Young, abarcava na sua timidez e introversão, o espírito do génio que marcaria definitivamente a história do jazz e da música do século XX.

A Gillespie deve-se, em grande parte, um desenvolvimento harmónico de substituição da harmonia (acordes *), por outra harmonia mais complexa, com novas extensões (notas acima da sétima do acorde) e dando-lhe um carácter mais cromático (sequência de meios em meios tons). A intuição de Parker levou-o a uma acentuação diferente das notas e do legato (forma musical de ligar as notas) e à construção de linhas melódicas, com a extensão de dois ou mais compassos, para servir não só a complexa harmonia, como o andamento rápido que este género veio trazer.

Henry Minton abriu em Harlem um clube, “Minton’s Club” e convidou Teddy Hill para dirigir a parte musical. Sequioso que Hill estava da nova música e dos novos músicos, convidou Gillespie, Parker, Thelonious Monk, Charlie Christian e Kenny Clarke que adaptou o já batido 4/4 a uma nova forma de usar o prato de choque (hi-hat). Se Art Tatum, com o seu insuperável recorte técnico abriu novos horizontes na forma de tocar piano dessa época, Earl Hines e Teddy Wilson vieram-no comprovar. Wilson passou a mensagem a Bud Powell, na nova forma de tocar, com a mão direita em melodia simples e a mão esquerda, sem a
preocupação da marcação do baixo – o contrabaixo cumpria essa função, livre para todo um desenvolvimento harmónico surpreendente, com as nonas e as décimas terceiras a substituir anteriores sextas.

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Monk, um eterno inovador com as suas irreverentes composições, veio trazer sonoridades e extensões harmónicas difíceis que exigiram muito treino e empenho da parte dos solistas. Uma das grandes diferenças do Be-Bop (Rebop), para o anterior swing, passa pelo tempo dado a cada solista, o que numa orquestra é muito difícil devido ao grande número de músicos envolvidos. Obviamente que o colapso de muitas big-bands e a dificuldades financeiras das grandes formações, serviram de suporte a estas formações mais pequenas que costumavam tocar, nas altas horas da noite, de costas viradas para o público.

A substituição das colcheias (duas notas num tempo) pelas semi-colcheias (quatro notas num tempo) e o andamento desenfreado que se utilizava, era a melhor forma de seleccionar os músicos que se debatiam e por vezes gladiavam em pequenas batalhas musicais quando o amanhecer dava os primeiros passos.

Diremos que o Be-Bop é um género criado por músicos inteligentes e desenvolvidos, para ouvidos mais cuidados e atentos, perdendo de alguma forma, a popularidade criada pelo estilo dos anos 30, mas sendo uma dos estilos mais marcantes do jazz, até aos nossos dias.

* Acordes – três ou mais notas tocadas em simultâneo que normalmente servem de acompanhamento ou suporte a uma melodia, cantada ou simplesmente tocada.