Bad Bunny, Taylor Swift e os Portugueses em Excursão pelo Próprio País

Os bilhetes desapareceram em minutos.
Aconteceu com Taylor Swift. Acontece agora com Bad Bunny. Acontecerá com o próximo
grande fenómeno global que aterrar em Portugal. Os estádios enchem-se, as
plataformas de venda colapsam e milhares de pessoas organizam viagens, reservas de
hotel e despesas significativas para garantir presença num evento que sentem ser
irrepetível.
Este fenómeno não deve ser encarado com desdém. Pelo contrário. Demonstra a
capacidade que a cultura tem para mobilizar pessoas, criar comunidades e gerar
experiências coletivas. Artistas como Bad Bunny são hoje muito mais do que músicos.
São marcas culturais globais, capazes de influenciar hábitos, linguagem,
comportamentos e até o interesse por outras línguas e realidades. Muitos jovens
portugueses tiveram um primeiro contacto com a língua espanhola através da música
latina. Isso, por si só, revela a força da cultura enquanto veículo de aproximação entre
povos.
A questão não está, portanto, em Bad Bunny.
A questão está em nós.
Porque enquanto celebramos a capacidade destes artistas para mobilizar multidões,
importa perguntar por que razão a cultura portuguesa raramente consegue gerar o
mesmo entusiasmo. Porque é que os grandes eventos internacionais esgotam em
poucas horas enquanto tantas salas de espetáculo nacionais enfrentam dificuldades
para atrair público? Porque é que conhecemos ao detalhe a agenda dos artistas globais,
mas desconhecemos frequentemente aquilo que se produz nas nossas cidades?
A resposta não é simples. Vivemos numa época marcada pela globalização cultural, em
que as referências são cada vez mais internacionais e menos locais. As plataformas
digitais colocam artistas de qualquer parte do mundo à distância de um clique e criam
fenómenos de escala sem precedentes. Nunca foi tão fácil aceder à cultura. Mas talvez
nunca tenha sido tão difícil construir uma relação duradoura com a cultura que nos é
mais próxima.
Há algo de paradoxal nesta realidade. Consumimos conteúdos produzidos em todos os
continentes, acompanhamos tendências globais em tempo real e participamos em
fenómenos culturais planetários. Contudo, à medida que o mundo se aproxima, parece
crescer uma certa distância em relação àquilo que nos rodeia.
Esta sensação estende-se para além da cultura.
Hoje, um português que decide passar um fim de semana noutra cidade do seu próprio
país paga, em muitos casos, uma taxa turística. O conceito tornou-se tão habitual que
raramente é questionado. No entanto, a sua existência levanta uma reflexão mais
profunda: até que ponto começámos a olhar para o território nacional através da lógica
do visitante e não da pertença?
Naturalmente, as autarquias têm razões legítimas para criar mecanismos de
financiamento associados à pressão turística. Mas a aplicação destas taxas a cidadãos
nacionais transporta uma mensagem simbólica difícil de ignorar. A de que, mesmo
dentro das nossas fronteiras, passamos a ser tratados sobretudo como utilizadores,
consumidores ou visitantes.
Talvez por isso exista uma crescente sensação de que nos tornámos turistas no nosso
próprio país.
Não porque deixemos de pertencer a ele, mas porque muitas das nossas relações com
o território, com as cidades e até com a cultura passaram a ser mediadas por uma lógica
de consumo.
Consumimos eventos.
Consumimos experiências.
Consumimos destinos.
Consumimos identidade.
E, por vezes, corremos o risco de esquecer que uma comunidade não se constrói
apenas através daquilo que consome, mas também através daquilo que preserva,
valoriza e transmite.
Bad Bunny não é responsável por esta realidade. Nem Taylor Swift. O seu sucesso é
apenas a demonstração da extraordinária capacidade de certas expressões culturais
para conquistar o mundo.
A verdadeira questão é outra: que espaço reservamos para aquilo que é nosso?
Num tempo em que os fenómenos globais se sucedem a uma velocidade cada vez
maior, talvez o desafio não seja resistir à influência do mundo. O desafio seja garantir
que, enquanto olhamos para fora, não deixamos de olhar para dentro.
Porque os estádios continuarão a encher-se.
Os fenómenos globais continuarão a surgir.
Mas uma cultura afirma-se não apenas pela forma como acolhe o que vem de fora.
Afirma-se, sobretudo, pela forma como valoriza aquilo que já tem dentro de casa.