Ausência e Saudade – Por Rosa Fonseca

O começo e o fim estiveram sempre a acontecer, misturavam-se, como se o tempo se encurvasse sobre si mesmo, deixando-me perdida entre o que foi e o que poderia ter sido. E um dia tu partiste. As horas cruzavam-se silenciosas, repletas de uma ausência que ecoava em cada canto, em cada palavra por dizer. Ainda assim, entre a saudade, encontrei vestígios de ti nas pequenas coisas — no cheiro do vento, na luz que atravessa a janela, na memória de um sorriso que insiste em permanecer. Mas as noites, pesarosas, tornaram-se em eternidades.

Ainda olho o teu corpo a mover-se em contraluz e os teus beijos e as tuas mãos a afastarem-se….

Quantas horas passei na esperança de uma chamada! Fui fantasma nas cidades onde te imaginava. Já não habitava mais o tempo presente.

Os meus olhos cansados mergulhavam numa luz débil.

A distância, que sempre admitimos vir a acontecer, condenou-nos ao afastamento.

E, sem ainda saber explicar, sinto-te presente, como uma presença invisível que me guia, que me ensina a aceitar que o amor também é soltar, e guardar no coração a beleza de tudo o que vivemos. Assim, persigo, com a esperança de que, um dia, naquelas ruas que percorríamos, as nossas mãos se reencontrem e o nosso olhar permaneça além do tempo.

Às vezes, nas noites em que consigo sossegar, vejo-te entre as nuvens, livre, sem as amarras do mundo.

Enquanto não vens, soletro em silêncio as tuas últimas palavras antes de partires: “Amar-te-ei para sempre.”

Espero-te no nosso sofá amarelo, de onde olhávamos o entardecer em absoluta ternura.