Aurélia de Souza – Retrato de uma artista livre

Num período em que o mundo das artes era dominado por homens, Aurélia de Souza destacou-se como uma das mais importantes pintoras portuguesas da viragem do século XIX para o século XX. Nascida em 1866, no Chile, filha de emigrantes portugueses, Aurélia de Souza mudou-se ainda criança para Portugal, estabelecendo-se com a família no Porto. Foi aí que desenvolveu grande parte da sua formação artística e construiu uma carreira que a tornaria uma referência incontornável da pintura portuguesa.
Frequentou a Academia Portuense de Belas-Artes, uma escolha pouco comum para uma mulher da época, onde adquiriu as bases técnicas que mais tarde aprofundaria através de viagens. Tal como outros artistas da sua geração, procurou alargar horizontes no estrangeiro, sobretudo em França, onde contactou diretamente com as tendências que marcavam o final do século XIX. Entre 1899 e 1901 estudou em Paris, na Academia Julian, instituição frequentada também por artistas como Eduardo Viana, Dordio Gomes e Helena Vieira da Silva.
Durante a sua estadia em Paris beneficiou de uma oportunidade rara para as mulheres da época: o acesso ao desenho a partir de modelo vivo. Embora frequentemente se tratasse de modelos infantis ou parcialmente vestidos, esta prática representava um avanço significativo. O estudo do nu constituía um dos pilares da formação académica e era considerado essencial para uma carreira artística de prestígio. A exclusão das mulheres deste tipo de ensino foi, durante décadas, um dos principais fatores que limitaram a sua presença na História da Arte.

A sua pintura resulta de uma constante reflexão sobre a criação artística. Explorou uma grande diversidade de temas, incluindo alguns que nem sempre eram bem vistos pela sociedade burguesa do seu tempo. Nos seus notáveis autorretratos — entre os quais se destaca o célebre Autorretrato de Casaco Vermelho, realizado durante o período parisiense — aborda questões ligadas à identidade feminina e à condição da mulher artista numa época marcada por profundas incertezas para aquelas que escolhiam seguir esta profissão.
Numa carta dirigida à irmã Luísa, escreveu: «Vou entrar num concurso, mas não me dá palpite. Entram muitos homens e quando eles entram, as mulheres ficam de lado.» Esta frase sintetiza os obstáculos enfrentados por quem procurava afirmar-se num meio profundamente desigual.
A pintura No Atelier constitui um exemplo paradigmático deste universo de dúvidas e questionamentos. Nela, uma luz dourada emana de uma tela colocada num cavalete, iluminando o espaço e o próprio ato criativo, enquanto uma figura feminina permanece mergulhada na penumbra, prostrada sobre uma mesa. A obra parece traduzir as inquietações da artista perante os caminhos possíveis da sua carreira e a tensão entre o desejo de inovação e as limitações impostas por um país ainda distante dos grandes centros da vanguarda europeia.
Grande parte da sua produção nasceu da observação do universo que a rodeava. A Quinta da China, propriedade da família no Porto, foi uma das suas principais fontes de inspiração. Ali retratou familiares, amigos, jardins, interiores domésticos e momentos simples do quotidiano.

Entre os temas mais frequentes da sua obra encontram-se os retratos e os autorretratos. Estes trabalhos constituem verdadeiros estudos psicológicos. Frequentemente marcados pela intensidade do olhar, parecem estabelecer uma comunicação direta com o observador, transmitindo emoções que oscilam entre a serenidade, a melancolia e a introspeção.
Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, que privilegiavam os retratos da elite, demonstrou interesse por trabalhadores, mendigos e figuras anónimas da vida urbana, revelando uma sensibilidade social pouco comum na época.
Os seus temas passam ainda pela paisagem atmosférica, próxima da sensibilidade impressionista. Na pintura de género privilegiou frequentemente a pincelada solta e expressiva em detrimento do detalhe minucioso, antecipando sinais de uma modernidade que ainda estava por chegar, mas que Aurélia já intuía. Também abordou temas religiosos com notável liberdade interpretativa, como se observa em Jezabel Devorada pelos Cães, onde a figura feminina surge vulnerável perante a força destruidora dos animais.
Impedida de viajar devido ao eclodir da Primeira Guerra Mundial, Aurélia expôs pela primeira vez na Sociedade Nacional de Belas-Artes, em Lisboa, em 1916. Aí chamou a atenção de Columbano Bordalo Pinheiro, então diretor do Museu de Arte Contemporânea, que adquiriu uma das suas obras para a coleção do museu.

Apesar dos preconceitos dirigidos às mulheres que procuravam uma carreira artística para além da chamada pintura decorativa, Aurélia fez da arte o seu modo de vida. Expôs regularmente na Academia Portuense de Belas-Artes, na Santa Casa da Misericórdia, no Palácio de Cristal, na Sociedade Nacional de Belas-Artes e noutras instituições de Lisboa e do Porto. Colaborou em revistas, deu aulas no seu atelier da Quinta da China e conquistou reconhecimento junto de colecionadores, chegando a ocupar o segundo lugar nas vendas da Sociedade Nacional de Belas-Artes em 1918.
A vida pessoal da artista permanece envolta em mistério. A destruição dos seus diários e a escassez da correspondência conservada dificultam o conhecimento aprofundado da sua intimidade. A sua vida foi inteiramente dedicada à pintura, paixão que a levou a renunciar ao casamento e à maternidade. Quando morreu, em 1922, deixou uma obra vasta e diversificada que continua a ser estudada e admirada. Hoje é reconhecida como como uma referência fundamental na afirmação das mulheres no panorama artístico nacional.
Bibliografia fundamental:
Aurélia de Sousa em Contexto – A Cultura Artística no Fim de Século – Maria João Lello Ortigão de Oliveira, INCM, 2006
Catálogo Raisonné da obra de Aurélia de Souza, Museu Nacional Soares dos Reis