As Carruagens da Ressaca Académica

A Queima das Fitas no Porto ergue-se como um monumento anual ao excesso, onde o civismo parece ser a primeira vítima das celebrações. Tudo começa com a euforia desenfreada no Queimódromo, um cenário de “autênticos javardos” onde a dignidade académica se dilui em hectolitros de cerveja e misturas duvidosas. Nestas noites, a juventude — imbuída de um espírito de rebeldia que roça o patológico — acredita que o sucesso escolar se mede pela quantidade de álcool que o fígado consegue processar antes do colapso. O cenário é de uma decadência previsível: grupos de “futuros senhores doutores” cambaleando pelas plataformas, transformando o espaço público num prolongamento da sua própria falta de noção. Contudo, a hipocrisia atinge o seu apogeu na manhã seguinte.

Num esforço hercúleo de dissimulação, estes mesmos jovens tentam sacudir a ressaca e a vergonha para receberem, com um sorriso lívido e mãos trémulas, os familiares que chegam para a Bênção das Pastas. É um teatro de pureza improvisado, onde o hálito a álcool é camuflado por pastilhas elásticas e a postura “nobre” tenta esconder que, poucas horas antes, a única preocupação era não cair na linha do metro…

Neste caos coreografado, importa enaltecer as verdadeiras figuras de resistência: os maquinistas e profissionais do Metro do Porto. Enquanto a cidade se entrega à histeria festiva, estes homens e mulheres mantêm-se como pilares de sobriedade e profissionalismo, operando em horários contínuos e desgastantes. É um contraste gritante ver o maquinista, atento e sereno no seu posto de comando, ser obrigado a transportar esta massa humana barulhenta que ignora o sacrifício de quem trabalha para que eles se divirtam. Estes profissionais, alheios ao brilho das cartolas e das

bengalas, garantem a segurança de quem nem sequer consegue manter o equilíbrio. Trabalham em turnos de “sossego mórbido” interrompido apenas pelos gritos de quem acha que ser estudante é um salvo-conduto para o desrespeito. Enquanto o país celebra o futuro da nação em trajes académicos, convém recordar que o verdadeiro motor da sociedade não está naqueles que mal se aguentam nas pernas, mas sim nos braços de quem, sem direito a palcos ou elogios, conduz o destino de uma juventude que parece ter-se esquecido de lavar o rosto e a alma antes de entrar na carruagem.