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Domingo, Julho 14, 2024

Artesão de Coimbra preserva a pintura tradicional do prato ‘ratinho’

Um artesão de Coimbra reclama aos 69 anos o lugar de último pintor de louça 'ratinha', ligada aos antigos movimentos migratórios dos camponeses do Centro e do Norte para os trabalhos agrícolas sazonais do Sul.

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Carlos Tomás dirige há décadas, no largo da Sé Velha, uma loja onde expõe e vende milhares de peças de cerâmica artística, com destaque para a chamada louça de Coimbra e para os pratos ‘ratinhos’.

O louceiro disse  que esta faiança popular, também designada ‘troca-trapos‘, inclui pratos, alguidares e tigelas, decorados com peixes, aves, elementos vegetais, lavradores, músicos, pescadores e pastores, entre outros motivos.

Era feita na região das Beiras, especialmente no inverno”, referiu, para explicar que, nos séculos XIX e XX, tais utensílios eram produzidos no início por famílias pobres que se deslocavam para o Ribatejo, a Beira Baixa, o Alentejo e mesmo a Extremadura espanhola.

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Segundo Carlos Tomás, estes trabalhadores, conhecidos como ‘ratinhos’, ‘pica-milhos’ ou gaibéus, levavam consigo os pratos e “os senhores dos campos, no final, ficavam com as cerâmicas, trocando-as por roupas e agasalhos”, o que deu origem à expressão ‘troca-trapos’.

Em 1939, “Gaibéus” foi o título dado por Alves Redol (1911-1969) ao seu primeiro romance, inaugurando o movimento do neorrealismo, com relatos sobre a vida de “um povo resignado que luta afincadamente” de sol a sol, nos arrozais alagadiços do Ribatejo.

Também Manuel da Fonseca (1911-1993) contou a vida dura nos campos onde os ‘ratinhos‘ – beirões, minhotos e até gente da Galiza – procuravam ganhar algum dinheiro, o que não conseguiam nas magras leiras do interior montanhoso.

No poema “Maria Campaniça”, o neorrealista evoca uma mulher de olhos lindos, “rosto macerado de andar na ceifa e na monda desde manhã ao sol-posto”.

Natural de Condeixa-a-Nova, Carlos Tomás ainda era criança quando aprendeu a pintar o prato ‘ratinho’, numa oficina daquela vila do distrito de Coimbra.

Não conheço mais ninguém a pintar cerâmica ‘ratinha’ à mão”, afirmou, realçando que se trata de “uma louça das Beiras e uma das mais bonitas do mundo”.

Tudo começou quando, com apenas 11 anos, tinha de fugir quando lá iam os fiscais. Mais tarde, resolveu que a cerâmica era a sua vida.

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Coimbra chegou a acolher dezenas de olarias de onde saíam faianças várias, sobretudo na Baixa, onde a importância da atividade ao longo dos séculos ficou gravada em topónimos como largo das Olarias e rua da Louça.

Ali bem perto, o Hotel Oslo ornamenta paredes com vários pratos ‘ratinhos’. Na Alta, o Museu Nacional Machado de Castro possui um acervo de cerca de 170 destas peças com desenhos ingénuos e cores vivas.

Houve uma cerâmica no Alentejo que as fazia muito bem, como em Coimbra e Alcobaça”, contou Carlos Tomás.

Em Castelo Branco, no Museu Cargaleiro, pode ser visitada uma mostra de cerâmica popular que integra um conjunto de pratos ‘ratinhos’.

Também o investigador Aires Henriques reúne no Solar do Povo Ratinho, em Pedrógão Grande, quase uma centena destes pratos e algumas planganas ou alguidares, outrora usados pelos ‘pica-milhos’.

O que distingue mais a cerâmica ‘ratinha’ são as cercaduras de palmas e as cores, como o verde-cobre e o morado”, disse Carlos Tomás.

Segundo Aires Henriques, a expressão ‘pica-milhos’ provém, possivelmente, do facto de multidões de migrantes que rumavam ao Sul serem oriundas do Minho e da Galiza, onde os campos de milho dominavam a paisagem rural.

Pelo contrário, para o artesão de Coimbra, “não há dúvida nenhuma” de que a designação está associada à imagem coletiva dos ‘ratinhos’ a “picarem todos da mesma taça”.

Levariam alguma louça, mas não seria ‘ratinha’. A cerâmica ‘ratinha’ eram os agrários que a compravam. Atrás dos ‘ratinhos’ iam os almocreves vender louças nas feiras locais”, justificou Aires Henriques.

Na sua opinião, “o grosso desses ‘ratinhos’ eram serranos” que viviam nas montanhas da Lousã e do Caramulo, por exemplo, onde cultivavam “faixas muito estreitas” de terra.

Era “gente com grandes dificuldades que migrava” com o objetivo de “angariar algum dinheiro para pagar na mercearia, nalgumas situações para casar a filha…”.

‘Ratinhos‘ foi “o nome que se vulgarizou mais, talvez pelo aspeto de pequenino da maior parte deles, pelo tipo de roupas acastanhadas e acinzentadas” que usavam.

Com grande denodo na execução das tarefas”, sobretudo na ceifa, bem como na monda, vindima e apanha da azeitona, “como se fossem ‘ratinhos’”, sugeriu ainda Aires Henriques, de 76 anos.

Gente pobre, humilde e inculta que ia concorrer com os trabalhadores locais, cujas condições não eram melhores”, enfatizou.

Em 2022, o dono do Solar do Povo Ratinho, nos Troviscais, lançou a antologia “Os ‘ratinhos’: o povo serrano por terras do Alentejo e Borda d’Água”, tendo igualmente publicado o livro “O canto popular e as migrações internas”, editado pelo município de Lousada.

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