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Domingo, Fevereiro 25, 2024

Arnaldo Trindade, o poeta dos sons… – Por António Ferro

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No dia 9 de janeiro de 2024, estive no velório desse avultado homem da cultura – Arnaldo Trindade. Dia 10, cheguei a horas (10h), para o acompanhar na sua última partida. A missa que antecedeu o funeral, foi muito solene, com música de um violino solo e um padre que soube de uma maneira magnífica, conduzir as palavras que tocaram nos corações de quem esteva presente. A mensagem da sua neta, comoveu-me profundamente.

Por onde anda o Sr. Presidente da Câmara Municipal do Porto que curiosamente acumula também, o pelouro da cultura? No funeral do Avelino Tavares, outro grande dinamizador cultural do Porto, do norte e de Portugal, também não esteve presente…Ah! Já sei! Estava a comentar o problema do JN, via skipe…

Deixo uma pergunta no ar, é assim que trata os agentes culturais da sua cidade?
Sinceramente, depois de o conhecer e de conviver no B Flat Jazz Club e de termos interessantes conversas versus cultura, estou bastante dececionado consigo… Calma! O Dr. Sebastião foi representar a autarquia…Mas voltemos ao Arnaldo que teve a sorte do Carlos Araújo, lhe ter proporcionado, ainda em vida, uma bonita homenagem no Passos Manuel, onde os seus amigos puderam conviver e estar com ele.

Arnaldo Trindade, nasceu no Bonfim, no Porto, a 21 de setembro de 1934 e faleceu a 8 de janeiro de 2024. Foi um conhecido editor na indústria fonográfica das décadas de 1960, 1970 e 1980 em Portugal. Foi o fundador da editora discográfica Orfeu.
A estreia da sua editora, aconteceu a 1956 com o disco “Torga por Torga” do escritor Miguel Torga. A coleção de poesia continuou com: Eugénio de Andrade, José Régio, Jaime Cortesão, Sophia de Mello Breyner, Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro.

Foi na Orfeu que José Afonso gravou o melhor da sua obra, Adriano Correia de Oliveira lançou todos os seus discos e foi nesta editora que Vitorino se estreou. Os clássicos discos “Pano Cru” e “Campolide” de Sérgio Godinho, ou o “Duo Ouro Negro”, são outros nomes sonantes lançados pela editora, a que se juntam António Portugal, Fausto e Luís Cília. A editora tinha também uma linha mais popular, com artistas como: Lenita Gentil, Florência, os conjuntos António Mafra e Maria Albertina e ainda Quim Barreiros. A editora inovou com o lançamento de discos do “Pop Five Music Incorporated”. Mais tarde, os maestros José Calvário e Miguel Graça Moura, gravaram em Londres, nos famosos estúdios da “Pye Records”, com o selo da Orfeu.

A editora portuense possuía o exclusivo de etiquetas internacionais importantes como a Durium Records (italiana), Disques Vogue (francesa), Pye Records (britânica), “Tamla-Motown” (americana) e “Island Records” (inglesa).

Em 1969, Arnaldo Trindade foi inovador na realização da primeira convenção da Indústria Discográfica em Portugal, atraindo a atenção da revista “Billboard”, ao trazer a “Ofir” representantes de todo o mundo e bandas como os “Foundations”, “Status Quo”ou os “Long John Baldry”, onde tocava o pianista Reginald Dwight (mais tarde conhecido como Elton John).

As duas canções-senha que deram início à Revolução de 25 de Abril de 1974– “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho e “Grândola Vila Morena” de José Afonso – fazem parte do vastíssimo legado da editora de Arnaldo Trindade. Na década de 1970, passou pela editora José Cid, que lançou o épico álbum “10.000 anos depois entre Vénus e Marte”. Um disco, entre os cem melhores discos de rock de sempre!

Palavras de Arnaldo Trindade:
– Não podia ser de outra maneira. A Orfeu tinha no final dos anos 60 e durante os anos 70, até meados da década de 1980, os melhores artistas e criadores de música portuguesa. Apercebi-me que se tratava de um movimento, de uma geração que iria marcar para sempre a música feita em Portugal e cantada em português, sob temática portuguesa. Música de Tema lhe chamei e com razão o fiz (…) Pouco importava que a PIDE e a censura, o SNI não gostassem e exercessem pressões. Tinha de ser feito e seria feito. Uma vez encetada a iniciativa, a responsabilidade da produção e da edição era minha. Além dos melhores artistas, possuía um núcleo de colaboradores ativos e de uma extrema lealdade e firmeza de propósitos. Se o quisermos, a Orfeu era também uma barricada, um aríete contra a muralha do obscurantismo”.

Em 2012, a Câmara Municipal do Porto, distinguiu-o com a Medalha Municipal de Mérito, no “reinado” do Dr. Rui Rio.




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