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Domingo, Abril 14, 2024

António Ferro – Cinquenta anos de música desde a “intervenção” até ao Jazz

Falar dos 50 anos de carreira, seja de quem for, é desfiar uma longa história. Do músico António Ferro, muito mais longo é o argumento, dada a versatilidade e diversidade do que foi fazendo pela música e pelos autores, ao longo da sua vida profissional.

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Pelo que, para não passar com leveza por assuntos importantes, vamos dividir o cinquentenário em duas partes. Uma de âmbito geral –esta– e, depois, a sua aventura por terras orientais e também pelo Coliseu do Porto, onde foi diretor artístico.

Aos 13 anos já eu ganhava 250 escudos por mês, no Conjunto das Oficinas de S. José, em Lisboa. Tocava guitarra. O meu pai, com um horário completo no seu trabalho, ganhava mil e tal escudos!” – Afirma,de sorriso aberto, António Ferro. Nasceu em Lisboa, reside no Porto, mas tem passagens por vários cantos do mundo. Corria o ano de 1973, o jovem guitarrista do conjunto e futuro “baixista” profissional, já só tinha olhos para a música.

Em 1978 integrou a “Go Graal Blues Band”. E começou a fazer história.
“A Go Graal foi a primeira banda a gravar um disco de “blues” em Portugal.”
Já era o Gonzo quem cantava?
Não, nessa altura o Paulo Gonzo tocava harmónica. O vocalista era o José Carlos Cordeiro, um excelente cantor. Só quando este deixou a banda é que passou a ser o Gonzo o vocalista.”
António Ferro, que tocava “baixo” também saiu. O desvio melódico não agradou.
Quando eles entraram numa área mais de rock eu resolvi sair”.

E veio o Serviço Militar, na época obrigatório. Cumprido, como não podia deixar de ser, na Orquestra do Exército. Um acaso da vida que já parecia “destinada”.
Tive conhecimento de que precisavam de um baixista e de um pianista. Telefonei ao Mário Laginha, meu amigo desde os 14 anos, e concorremos aos lugares. Ficámos. Na altura, ganhava-se bem na Orquestra do Exército.”

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Foto de Cristina Romariz



O lado esquerdo da carreira


Depois da tropa, comecei a participar com os da “esquerda” em diversos projetos”. – conta António Ferro
Neste período, em que ser de esquerda era quase uma inevitabilidade juvenil, refere com carinho o nome de Luís Cília.
Dos cantautores é o que eu mais respeito. Viveu muitos anos em França, mas dedicou a vida toda a cantar os poetas portugueses. Culturalmente, à frente dos outros. Foi o primeiro a entrar para o PCP e o primeiro a sair. Foi o autor do “Avante Camarada”, hino do PCP. O Fausto e o Sérgio Godinho quando gravavam iam, quase sempre, pedir-lhe opinião.”
António Ferro tocou com Luís Cília durante dois anos.
Só ele e eu. O Luís na guitarra e na voz, eu no “baixo”. Fomos a França e a Espanha. Ele é muito bom compositor. Pena não ter uma voz que acompanhe essa qualidade.”

Depois do Luís Cília, passou a tocar com muitos outros, como o José Mário Branco, Fausto, Vitorino e Janita Salomé.
Gravou o “Despertar dos Alquimistas”, do Fausto.
“O José Mário Branco era o melhor “arranjador” que havia em Portugal. Tinha ideias criativas incríveis.”
A trabalhar em estúdio, era quase de “sol a sol”
Eu chegava a gravar um disco um disco de manhã e outro à tarde. Também toquei uma vez com o Zeca Afonso. Aquilo não eram concertos, eram comícios!

“Fungagá da Bicharada”

Quem passou a infância no final dos anos 1970, início dos 80, lembra-se de um programa infantil, na RTP 1, apresentado por Júlio Isidro, chamado “Fungagá da Bicharada”. Que contava com a participação de José Barata-Moura, o autor do tema musical com o mesmo nome: “Fungagá da Bicharada”. Que teve um enorme sucesso junto de crianças e até dos adultos. António Ferro, esteva por lá…
Fiz os arranjos com o Vítor Mamede. Foi muito bom. Gosto muito de crianças, dei aulas de música durante muito tempo e adoro trabalhar para as crianças. São muito sinceras”
Mas o José Barata-Moura, de início, não achou muita piada aos arranjos…
“Quando o Barata-Moura chegou para gravar, abriu os braços e disse – o que é isto? Isto é jazz? Como ele vinha sempre com os filhos, que faziam os coros, foi graças a um deles que a canção “passou”, pois começou a dizer – ó pai, isto está muito giro! E pronto, lá se convenceu por causa dos filhos. As crianças merecem música de qualidade. Lá por serem crianças, não tem que “levar” com qualquer coisa…”

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Foto de Cristina Romariz



Jóias inesquecíveis

António Ferro esteve por dentro de alguns dos grandes temas musicais gravados por cá. Muitos, nem ele próprio recorda, pois como músico de estúdio, gravava o dia inteiro. Mas há marcos, referências que por mais anos que passem não abandonam a memória.
“Gravei o “Quinteto de Maria João”. Foi o primeiro disco de Jazz cantado gravado em Portugal. Foi em 4 de Abril de 1983. Toquei “baixo elétrico” e foi o primeiro em que participei também como arranjador.”

Inesquecível. Como a descoberta de uma menina de nome Mafalda Veiga.
No primeiro álbum da Mafalda Veiga “Pássaros do Sul”, fiz os arranjos de todos os temas. Foi Disco de Prata ao fim de 2 meses”
Em 1986 e 1987 gravou dois discos do Carlos Alberto Moniz.
Depois, com o Carlos Mendes. Que o conduziu ao projeto “Só Nós Três” – Carlos Mendes, Paulo de Carvalho e Fernando Tordo. Músico e colaborador do maestro Pedro Osório, o diretor musical.

Fernando Pereira

Um desfiar de nomes sem fim da música portuguesa. Uns que ficaram conhecidos, outros  na história . Aqui aparece o Fernando Pereira – durante anos, uma figura maior do espetáculo. Um exímio imitador. Havia lá voz ou outro som que o Fernando Pereira não imitasse!
“Com o Fernando Pereira trabalhei durante dois anos. Intensos anos! Fazíamos 29 espetáculos por mês. E não era em “tournée”. Íamos ao Porto, no dia seguinte a Sintra, a seguir a Guimarães e assim por aí fora. Ganhávamos muito dinheiro, mas trabalhávamos imenso. Cheguei a uma altura que já nem sabia qual era o dia da semana em que estávamos. Trabalhávamos todos os dias em locais diferentes e distantes uns dos outros.”
Fernando Pereira foi uma personagem ímpar. Sabe por que razão começou a perder um pouco a popularidade?
Foi a Televisão em permanência que lhe tirou essa popularidade. As características vocais do Fernando são excecionais. Num milhão de pessoas, aparece uma com essas potencialidades. Um médico americano que o observou, explicou isso. Tem a ver com as cordas vocais. Com a forma delas….” – divaga António Ferro. Temos de voltar à questão.
Mas a popularidade…
“Pois a TV. Para fazer o que ele fazia em permanência na televisão, precisa de espontaneidade. Criatividade imediata. E o Fernando não tem isso. Tem a voz e uma capacidade de memorizar extraordinária também. Mas para improvisar, não. E a televisão exige isso.”
Para dar um exemplo mais concreto, António Ferro usa um dos maiores humoristas portugueses.
O Herman. Olha para este copo e diz uma piada imediatamente. O Fernando Pereira não é assim. Tem de ter tudo organizado na memória, não é repentista. Eu disse-lhe isso quando ele enveredou pela televisão”.
Crítico pela opção do artista, mas sincero na apreciação do homem.
“O Fernando Pereira é muito boa pessoa, tratou sempre muito bem os músicos. Gostei muito de trabalhar com ele”.

Festivais diversos

Perde-se a conta aos festivais de música ( jazz e blues) que contaram com a participação de António Ferro. Fosse como diretor artístico ou  noutra qualquer função. Guimarães Jazz  (cinco edições), Gaiablues , Matosinhos em Jazz, Seia Jazz and Blues, Funchal Jazz ( com André Sarbib), Festival de Santa Maria (Açores), entre muitos outros.
Como autor próprio, tem um  disco de jazz. No “Quinteto António Ferro” -KAF.

Assim vamos desnovelando os cinquenta anos profissionais de um músico. A seguir a sua viagem pela China e os “mistérios” do Coliseu do Porto.


António Ferro, músico multifacetado, homem das artes de da cultura. Ao fim de todos este tempo, consegue dizer, sem sombra de vaidade “no mundo da música não há  pessoa com quem tenha uma má relação.”






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