António Damásio desvenda desenvolvimento da consciência como consequência da inteligência natural

Quem passou esta sexta-feira, ao final da tarde, pelas imediações do Largo 1º de Dezembro, no Porto, deparou-se com uma afluência pouco habitual. Antes das 17h, uma longa fila de pessoas já se estendia desde o final da Avenida Vímara Peres, atravessando a Rua Saraiva de Carvalho. O motivo da concentração era claro: garantir um lugar no auditório da Ordem dos Contabilistas para assistir à conversa do neurocientista António Damásio, cuja presença despertou grande expectativa entre o público.
A sessão do Porto de Encontro no dia em que celebrava o seu 14º aniversário, teria início pelas 19h00, no Auditório da Ordem dos Contabilistas Certificados. António Damásio foi o convidado para apresentar a sua mais recente obra na cidade Invicta, pela primeira vez, “A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência.”

António Damásio é médico neurologista e um dos neurocientistas mais influentes da atualidade. Radicado nos EUA há mais de quatro décadas, é professor da cátedra David Dornsife de Neurociência, Psicologia e Filosofia e diretor do Brain and Creativity Institute na University of Southern California, em Los Angeles. Um centro dedicado ao estudo da mente, das emoções e da criatividade.
“Quem imaginaria que o afeto, em geral, e os sentimentos, em particular, fabricados por obra e graça da inteligência natural (…) se tornariam, na longa trajetória do tempo, os elementos definidores da existência humana (…) nada mais nada menos do que o mais profundo alicerce da humanidade que habitamos e observamos?” Esta questão essencial é levantada pelo neurocientista em “A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência.”

Ao longo de quase duas horas de conversa com o jornalista Sérgio Almeida, António Damásio revelou, com a simplicidade própria de quem domina profundamente a ciência, os principais avanços no estudo dos processos cerebrais relacionados com as emoções, os sentimentos, a tomada de decisões, a memória, a linguagem e a consciência. O neurocientista abordou o enigma da génese da consciência e defendeu a inteligência natural como a sua principal arquiteta. Num discurso fluido e rigoroso, destacou ainda a importância da sua identidade portuguesa, sublinhando que a lusitanidade permanece uma marca afetiva essencial, duradoura e intacta apesar das quatro décadas de trabalho e vida nos Estados Unidos.
Uma das suas mais famosas propostas é a que os sentimentos têm uma base biológica, e que certas regiões do cérebro (como o córtex insular) são importantes nesse processo. “«Os sentimentos de existência»” são as grandes e vibrantes provas de que existe um alicerce da consciência. (…) constituem uma parte essencial da Mente que Sente.”

Neste novo livro, Damásio vai mais longe e assume o risco de pensar os problemas e encontrar soluções com um ponto de interrogação. Neste contexto, defende «uma multidão de mentes» (multitude of minds). “A mente que Sente que produz continuamente sentimentos complexos que descrevem o estado do nosso interior”.
Sentimentos homeostáticos que regulam a nossa homeostasia e que são produzidos por processos analógicos, inteiramente biológicos. “A Mente Percetual é o espetáculo das pessoas, dos locais, dos objetos e dos acontecimentos que nos rodeiam, qual produção multimédia contínua e sumptuosa.” Uma superprodução dos sentidos. A “Mente Reflexiva que assume o controlo do nosso espaço mental” e que nos leva ao raciocínio focado e à construção do mundo de ideias. Do entrecruzamento entre “as Perceções daquilo que nos rodeia, as Reflexões sobre aquilo que apreendemos e a tradução paralela em Linguagem de todas as coisas, ações e qualidades que se nos apresentam podem ser designadas de forma composta: a Mente Percetual/Reflexiva/Linguística.”
António Damásio reforça a relação entre os domínios afetivo, reflexivo e linguístico mostrando que possuímos no nosso interior um sistema analógico inteiramente biológico e também um processo digital. O neurocientista assume que “ao escrever este livro, quis apresentar uma explicação convincente sobre quando e como os fenómenos mentais se tornam conscientes. (…) quis aprofundar o processo de criação do espetáculo multimédia interno e tridimensional que constitui a nossa mente.”
Autor de vários livros de divulgação científica bastante influentes, como O Erro de Descartes, O Sentimento de Si, À Procura de Espinosa, entre outros, António Damásio veio à Invicta lançar o último livro perante um auditório com mais de 1100 lugares, completamente esgotado e rendido às suas questões, à partilha do seu pensamento e à sua visão otimista da vida como um feito espantoso que não seria possível sem a consciência.
Damásio tem revolucionado a forma como entendemos a relação entre cérebro, emoção e razão. A sua investigação influencia áreas como a filosofia, a psicologia, a neurociência cognitiva e a ética. Em A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, desafia-nos a continuar a pensar sobre a forma como “a Inteligência Natural e os seus afetos viessem, por fim, a desafiar os seres humanos, e tentar conduzi-los à descoberta das suas próprias origens e poder.”
Maria João Coelho