“Ainda Estou Aqui” – Um filme de F maiúsculo


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“O meu pai tinha cinco filhos, eu não estava em casa naquele momento, mas os meus irmãos estavam, a minha mãe estava. Ele vestiu o terno, a gravata, e decidiu conduzir o seu próprio carro. Minha mãe foi presa no dia seguinte, ficou dez dias, a minha irmã de quinze anos, também. Quando minha mãe foi solta e voltou para buscar o carro, assinou um recibo e  tinha uma cópia desse recibo. Por muito tempo, essa foi a prova única que a tivemos de que ele tinha sido preso”.

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Ainda Estou Aqui é um filme brasileiro de 2024, do género drama biográfico, realizado por Walter Salles, com duas enormes atrizes, Fernanda Torres e Fernanda Montenegro (mãe e filha na vida real) no papel de Eunice Paiva, em diferentes fases das suas vidas. Selton Mello, aqui no papel de seu marido, desempenha o papel do deputado Rubens Paiva. O guião de Heitor Lorega e Murilo Hauser foi baseado no livro autobiográfico do seu filho Marcelo Rubens Paiva.

Ainda Estou Aqui , foi apresentado oficialmente nos cinemas brasileiros, no dia 7 de novembro de 2024, sofreu boicote da direita brasileira, o que não impediu de se ter tornado um sucesso de bilheteira, visionado por mais de cinco milhões de espetadores.

Foi incluído no Top 5 dos melhores filmes internacionais de 2024 da National Board of Review e considerado um dos melhores filmes do ano pelas revistas especializadas BBC e Sight & Sound. É o primeiro filme brasileiro a ganhar um óscar (melhor filme internacional). Estreou internacionalmente no Festival de Veneza em 2024, sendo aplaudido dez minutos, pelo público em pé. O filme foi premiado com a Osella de Ouro de Melhor Guião. Posteriormente, foi selecionado para mais de cinquenta festivais em todo o mundo.

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Enredo. Em dezembro de 1970, Eunice Paiva (Fernanda Torres) e seu marido, o ex-deputado e engenheiro, Rubens Paiva (Selton Mello), moram com a família no Rio de Janeiro, em tempos da Ditadura Militar. Seus amigos, Fernando (Charles Fricks) e Dalva Gasparian (Maeve Jinkings) procuram refúgio em Londres, a fim de escaparem dos horrores do regime, levando com eles a filha mais velha da família Paiva, Vera (Valentina Herszage). Numa tarde de janeiro de 1971, Rubens é levado por seis homens a mando do exército para um interrogatório e nunca mais regressa a casa. No dia seguinte, Eunice também é levada, junto com sua filha de quinze anos, Eliana (Luiza Kosovski).

Eunice é interrogada e questionam se seu marido está aliado a “facções terroristas” pró-redemocratização, o que ela nega constantemente.

Eunice permanece presa por cinco dias até ser liberada, sem notícias de seu marido. Ela volta para casa, se reencontra com Eliana e os outros filhos: Marcelo (Guilherme Silveira), Ana Lúcia (Bárbara Luz) e Beatriz (Cora Mora). A imprensa publica notícias falsas, dizendo que Rubens fugiu, mas tanto Eunice quanto seus amigos não acreditam. A cena do banho em sua casa, é qualquer coisa, pois não é lavar-se de cerca de uma semana estar vestida com a mesma roupa, mas lavar-se da tremenda injustiça que recaiu sobre ela e sua família. Eunice com a ajuda do advogado Lino Machado (Thelmo Fernandes), recorrem a um hábeas corpus a fim de garantir a liberdade e os direitos de seu marido. Baby Bocayuva (Dan Stulbach), amigo de Rubens, confessa para Eunice que eles, Gaspar e Raul Ryff (Daniel Dantas) prestaram apoio aos exilados em segredo. Eunice encontra-se com a ex-professora de suas filhas, Martha (Carla Ribas), que confirma que também foi presa junto com Rubens, mas tem medo de denunciar a prisão ilegal. Martha muda de ideia e escreve uma carta para Eunice contando os detalhes da prisão para servir como prova útil. Mais tarde, o jornalista Félix (Humberto Carrão), amigo da família, fala para Eunice que Rubens foi morto e que seu corpo está desaparecido, porém, os militares não vão confirmar isso oficialmente. Outra cena que me comoveu, a ida dela à gelataria com os seus filhos e o enorme esforço de Eunice, para não soltar qualquer lágrima…

Com a perda do marido, Eunice tenta reestruturar a vida da família. Vera regressa de Londres e junto com sua mãe e irmãos vão viver para São Paulo. Eunice decide regressar para a faculdade e aos quarenta e oito anos forma-se em Direito. Em 1996, Eunice torna-se uma ávida defensora dos direitos dos povos indígenas e recebe a notícia de que o Estado reconheceu o assassinato de Rubens, disponibilizando oficialmente um atestado de óbito.

Anos depois, em 2014, Eunice, agora representada por Fernanda Montenegro, é vista de cadeiras de rodas e com uma idade avançada, participando de um tradicional almoço em família, junto com os filhos e netos. Marcelo, também está numa cadeira de rodas…Uma reportagem sobre a ditadura passa na televisão e menciona Rubens como um dos ícones da resistência. Nos créditos finais, informa-se que Rubens Paiva foi morto entre 21 e 22 de janeiro de 1971, num dos quartéis da 1ª Divisão do Exército no RJ e que cinco homens foram denunciados por sua tortura e assassinato, mas continuam impunes até hoje. O filme explora não apenas o drama pessoal de Eunice, mas também o impacto do regime militar na vida de milhares de famílias brasileiras, destacando o papel das mulheres na resistência. Com uma narrativa profunda e sensível, este filme traz à tona questões de perda, coragem e resiliência, enquanto revisita um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. A obra é um tributo à força de Eunice Paiva, que, contra todas as adversidades, se torna uma figura central na luta pelos direitos humanos no país. E este extraordinário papel, não lhe dá o óscar de melhor atriz? Ainda não visionei outras atrizes nomeadas, mas Demi Moore e Fernanda Torres, de certo que o mereciam!

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Como último apontamento, vou falar da música. Da autoria de Elli Warren, teve o excelente bom gosto de ir buscar canções de: Roberto Carlos, Caetano Veloso (Os Mutantes), Tim Maia, Gal Costa, Tom Zé e Erasmo Carlos.

O pormenor de algumas canções serem ouvidas com a agulha a pousar no prato do gira-discos, é muito peculiar. Em determinada altura ouve-se a polémica canção “Je T’aime Mois Non Plus”, e Eunice minimiza: – Eles não sabem francês…