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Domingo, Abril 14, 2024

Ainda e sempre – O Amor

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Rosa Fonseca
Rosa Fonseca
Professora e Escritora

Se vamos falar de amor, então falemos também dos silêncios. Das estrelas no céu. Dos poentes. Da cadeira de baloiço no alpendre. Da luz das manhãs. Se vamos falar de amor, então falemos também dos dias ténues. Do ruído. Dos frios. Dos invernos no caminho. Falemos, pois, de nós, de mim e de ti.

Os primeiros raios de sol ferem-lhe o rosto. Trazem-lhe mais um dia de casa vazia. Emerge da noite mal dormida de choros calados de já não a ter inteira. No olhar, um tempo de névoas, uma ave de partida e silêncios demorados. Mas ainda é o seu sorriso fino que lhe acalenta os dias.

Amavam-se como no tempo em que colhiam os sorrisos um do outro, num arrebatado desejo. Amavam-se nos corpos quentes e submissos. Numa dança de braços, de lábios, de alma. De olhos e saliva. Tinham-se um ao outro, na luz e na contraluz da vida. Repartiam-se entre os seus olhares e encontravam-se na boca que calava todas as palavras.

Mas a vida prepara os seus caminhos e há uns dias, a espessura do céu cercou toda a claridade dos seus sonhos. Ecoam as últimas palavras do médico: Alzheimer!
Tudo o que não queremos ouvir. Tudo o que nos assusta.
Estreitaram-se os dias, as manhãs, os silêncios e uma longa saudade, atravessa a sombra que os empurra para uma esquina indefinida. Ela, sempre tão afoita à vida, está agora lentamente, a perde-la.
Sem ti, a vida dói-me ao respirar.

As noites e os dias são pálidos e o meu sorriso, às vezes, esmorece no olhar vago.
Com a doença aprimoramos o sabor das coisas simples; o sussurro do vento, o restolhar das folhas, a brisa que sopra.

Mas é o aroma das rosas escarlates que desperta os teus olhos, o teu leve sorriso. Ainda embelezo o teu ventre, de pétalas, num afago doce. É neste silêncio das tuas mãos que deposito as minhas.

Trago-te rosas todos os dias.
Detenho-me à porta da tua memória e indago se ainda faço parte dela. Se aí, ainda mora o nosso amor, se ainda me tens no teu olhar, esse mar cristalino, onde tantas vezes nos afundámos perdidos de paixão.

As tuas mãos…inquietas…
As mesmas que me apertavam nas tristezas e alegrias. Ainda vejo na geografia do teu corpo as imensas viagens de prazer. Sinto tão vazias e ténues as paredes da casa. O teu olhar perdido na luz rala do candeeiro amarelo. Gostavas de te aninhar nessa luz e talvez fosse esse o primeiro sinal que me deste de que, lentamente, te afastavas de mim.
E os teus livros – os que lias, desenfreadamente, tombam secos e flácidos nas estantes. Aprisionaste ali as histórias, mataste à sede os amantes.

Foste-me dando sinais, mas era a lonjura do teu olhar que me atormentava.
Vivemos agora numa paisagem desconhecida que nos circunscreve ao desconhecido.
Mas é ainda o meu peito, imbuído de amor, que acolhe o teu rosto quando as tardes caem e esfolho as rosas no teu regaço, enquanto te sussurro que o amor é um rio que beija os lábios do mar. Um verão constante na pele.

Tem sido longo e tortuoso este caminho que trilhamos. Perder-te para uma doença progressiva e irreversível das diversas funções cognitivas é como atravessar um deserto sem qualquer oásis à vista.

Mas por quantos desertos não passam os grandes amores!?
É em ti, meu amor, que procuro as searas longínquas que nos acolhiam de braços abertos, em pleno voo.

Se queremos falar de amor, falemos então dos pormenores e detalhes como replicação perfeita do que fomos. Dos amores que são eternos tesouros guardados no olhar em todas as direções.

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